O físico Henrique Gomes de Paiva Lins de Barros sempre foi obcecado por suas paixões. Cientista premiado, é apontado como um dos maiores historiadores de Santos Dumont. Talvez, por isso, voava longe na concretização de sonhos.
Nascido no Rio de Janeiro, puxou ao pai, um pernambucano da Marinha que participou da criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). Herdou as habilidades motoras da mãe, uma costureira carioca de mão cheia.
Formado em física pela PUC-Rio, deu seu nome a um de seus mais importantes estudos, sobre um organismo multicelular, a bactéria Magnetoglobus multicellularis, descoberta na lagoa de Araruama, no Rio de Janeiro, que analisou por cerca de 40 anos, segundo o Mast (Museu de Astronomia e Ciências Afins) —a bactéria passou a se denominada "debarossi", em referência a "de Barros".
"Foi uma grande novidade, tanto na física quanto na área de biologia", diz a antropóloga Myriam Moraes Lins de Barros, que foi casada com o cientista por 54 anos. "Ele coletava água na lagoa Rodrigo de Freitas e em vários outros lugares aqui no estado do Rio de Janeiro."
Barros fez seu doutorado no CBPF. Na mesma instituição, desenvolveu pesquisas em física atômica e biologia. Foi também diretor do Mast e chefe do Museu do Meio Ambiente do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
Mas um dos seus maiores interesses eram os feitos de Alberto Santos Dumont, do qual se tornou referência, inclusive, internacional. Barros escreveu livros e roteirizou documentários sobre o pai da aviação. Participou da construção de réplicas históricas, como a do 14 Bis.
Conforme lembra o Mast, recebeu condecorações como a Ordem do Mérito Aeronáutico, a Medalha Santos Dumont e a Ordem Nacional do Mérito Científico.
Como bom cientista, estudava a fundo as invenções do brasileiro famoso.
"Ele juntava seu conhecimento de física com aquela arquitetura do 14 Bis. O estudava fisicamente, pois o avião voou", diz Myriam, sobre o 12 de novembro de 1906, quando Santos Dumont decolou com meios próprios (motor) e percorreu 220 metros a uma altura de seis metros, durante 21 segundos, no Campo de Bagatelle, em Paris, conquistando o inédito recorde da aviação mundial.
No escritório que mais parece uma oficina na casa da família na Gávea, na zona sul do Rio, Myriam observa miniaturas feitas pelo marido em escala, como réplicas de Demoselle, criado entre 1907 e 1909 e apontado como primeiro ultraleve do mundo.
Também adorava fotografar de tudo um pouco. No seu acervo, claro, deixou inúmeras fotografias de aviões. Gostava de filmar, de pintar, de cinema, era compositor e apreciava música clássica. Fazia parte do Incaer (Instituto Cultural da Aeronáutica).
A partir de sua casa extremamente culta, andava com simplicidade pelas ruas da Gávea e falava com qualquer um sobre as coisas da terra, da água e do ar, que sempre estudou e ensinou.
Henrique Gomes de Paiva Lins de Barros morreu no último dia 27 de setembro, vítima de infarto, aos 78 anos. Deixa a mulher Myriam, as filhas Mônica e Flávia e quatro netos.
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