Ir para o conteúdo

Camilo Pessanha

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Camilo Pessanha
Pessanha fotografado em Lisboa (1916)
Nome completoCamilo de Almeida Pessanha
Nascimento
Morte
01 de março de 1926 (58 anos)

Causa da mortetuberculose pulmonar
ResidênciaMacau
NacionalidadePortuguês
Filho(a)(s)João Manuel de Almeida Pessanha
EducaçãoUniversidade de Coimbra
Ocupaçãopoeta, professor, magistrado
Magnum opusClepsidra
Condecorações Comendador da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada
Movimento estéticoSimbolismo
Assinatura

Camilo de Almeida Pessanha ComSE (Coimbra, 7 de setembro de 1867 – Macau, 1 de março de 1926) foi um poeta português.

É considerado o expoente máximo do simbolismo em língua portuguesa, além de antecipador do princípio modernista da fragmentação.[1] A sua obra influenciou escritores como Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Wenceslau de Moraes, Sophia de Mello Breyner Andresen e Eugénio de Andrade.[carece de fontes]?

Nasceu como filho ilegítimo de Francisco António de Almeida Pessanha, um aristocrata estudante de Direito, e de Maria Espírito Santo Duarte Nunes Pereira, sua empregada, em 7 de setembro de 1867, às 11h00, na Sé Nova, Coimbra, Portugal. O casal teria mais quatro filhos.

Tirou o curso de Direito em Coimbra. Procurador Régio em Mirandela (1892), advogado em Óbidos, em 1894, transfere-se para Macau, onde, durante três anos, foi professor de Filosofia Elementar no Liceu de Macau, deixando de lecionar por ter sido nomeado, em 1900, conservador do registo predial em Macau e depois juiz de comarca. Entre 1894 e 1915, voltou a Portugal algumas vezes, para tratamentos de saúde, tendo, numa delas, sido apresentado a Fernando Pessoa, que era, como Mário de Sá-Carneiro, apreciador da sua poesia.

Foi iniciado na Maçonaria em 1910, na Loja Luís de Camões, em Macau, com o nome simbólico de Angélico.[2]

Ao longe os barcos de flores

Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
– Perdida voz que de entre as mais se exila,
– Festões de som dissimulando a hora

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...

Camilo Pessanha (Clepsidra)

A 8 de março de 1919, foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.[3]

Publicou poemas em várias revistas e jornais, mas seu único livro, Clepsidra (1920), foi publicado sem a sua participação (pois se encontrava em Macau) por Ana de Castro Osório, a partir de autógrafos e recortes de jornais. Graças a essa iniciativa, os versos de Pessanha se salvaram do esquecimento. Posteriormente, o filho de Ana de Castro Osório, João de Castro Osório, ampliou a Clepsidra original, acrescentando-lhe poemas que foram encontrados. Essas edições foram publicadas em 1945, 1954 e 1969.

Na área da imprensa, encontra-se colaboração da sua autoria nas revistas Ave Azul[4] (1899-1900), Atlantida[5] (1915-1920) e Contemporânea[6] (1915-1926) e, postumamente, na revista Prisma[7] (1936-1941).

Morreu a 1 de março de 1926, em Macau, devido ao uso excessivo de ópio e a tuberculose pulmonar. A sua campa encontra-se no Cemitério São Miguel de Arcanjo, em Macau.[8]

Em 1949, a Câmara Municipal de Lisboa homenageou o poeta dando o nome dele a uma rua junto à Avenida da Igreja, em Alvalade.[9]

Toxicodependência

[editar | editar código]

No seu livro Memórias de um Ex-Morfinómano (1933), o jornalista Reinaldo Ferreira ("Repórter X") relata o caso de Camilo Pessanha, sob as iniciais C.P. Durante uma estadia em Paris, Pessanha experimentou o ópio e ficou viciado. Nessa cidade nunca teve dificuldade em obter a droga, mas uma vez regressado a Portugal, onde o ópio era muito difícil de obter, sofreu os horrores do síndrome de abstinência. Como o ópio em Paris era caro, a solução foi ir viver para Macau, onde a droga era barata, podendo obtê-la sem qualquer problema, pois era consumida por muitos dos habitantes da cidade.

Obra e características estéticas

[editar | editar código]

Além das características simbolistas que sua obra assume, já bem conhecidas, antecipa alguns princípios de tendências modernistas.

Buscou em Charles Baudelaire, proto-simbolista francês, o termo “Clepsidra”, que elegeu como título do seu único livro de poemas, praticando uma poética da sugestão como proposta por Mallarmé, evitando nomear um objeto direta e imediatamente.

Por outro lado, segundo o investigador da Universidade do Porto Luís Adriano Carlos,[10] o seu chamado "metaforismo" entraria no mesmo rol estético do imagismo, do interseccionismo e do surrealismo, buscando as relações analógicas entre significante e significado por intermédio da clivagem dinâmica dos dois planos.

Junto de sua fragmentação sintática, que, segundo a investigadora da Universidade do Minho Maria do Carmo Pinheiro Mendes, substitui um mundo ordenado segundo leis universalmente reconhecidas por um mundo fundado sobre a ambiguidade, a transitoriedade e a fragmentação,[11] podemos encontrar na obra de Camilo Pessanha, de acordo com os dois autores citados, duas características que costumam ser mais relacionadas à poesia moderna que ao Simbolismo mais convencional.

  • Manuscritos
    • Poesia
      • Caderno Poético de Camilo Pessanha. (A.H.M.)
      • Ó Meu Coração Torna para Trás. s.d., s.l.. (B.N.L.)
      • Viola Chinesa . s.d., s.l. (poema dedicado a Wenceslau de Moraes). (B.N.L.)
      • Desejos. 8 Novembro 1889. (B.M.P.)
      • San Gabriel. Macau, 7 Maio 1898. (B.N.L.)
      • Rosas de Inverno. Macau, 1901. (B.N.L.)
      • Passou o Outono Já, Já Torna o Frio… Lisboa, 20 Janeiro 1916. (B.M.P.)
    • Processos judiciais
      • Camilo Pessanha Advogado Oficioso (Processo Crime). Macau, 1894. (A.T.)
      • Camilo Pessanha Queixoso (Processo Crime). Macau, 1911. (A.T.)
      • Camilo Pessanha Juiz Substituto (Processo Civil). Macau, 1917. (A.T.)
      • Camilo Pessanha Conservador do Registo Predial. Macau, 1919. (A.T.)
  • Impressos
    • Poesia
      • Livros
        • Clepsydra. Lisboa, Lusitânia Ed. Ana de Castro Osório, 1920, 1a edição (Há edição fac-símile publicada pela Ecopy em 2009)
        • Clepsidra. Lisboa, Atica, Ed. João de Castro Osório, 1945, 1956 (reimp.)
        • Clepsidra e Outros Poemas, Ed. João de Castro Osório, Lisboa, Atica 1969
        • Caderno Poético de Camilo Pessanha, Macau, Edição dos Serviços de Educação e Cultura da Biblioteca Nacional de Macau, 1985.
        • Clepsydra - Poemas de Camilo Pessanha, São Paulo, Editora da UNICAMP, 1992.
      • Textos dispersos em publicações periódicas
        • "San Gabriel". Jornal Único, Macau, 7 Maio 1897.
        • "Rosas de Inverno". O Porvir, Hong-Kong, 21 Dezembro 1901
        • "Branco e Vermelho". Ideia Nova, Macau, (13) 18 Março 1929 (número integralmente dedicado a Camilo Pessanha).
        • "O "Caderno" de Camilo Pessanha" (apresentação de Danilo Barreiros). Persona, Porto, (10) Julho 1984.
    • Ensaios e Traduções
      • Livros
        • Kuok Man Kau Fo Shu – Leituras Chinesas (livro escolar, em colaboração com José Vicente Jorge). Macau, Editora da Tipografia Mercantil de N. T. Fernandes e Filhos, 1915.
        • Catálogo da Colecção de Arte Chinesa Oferecida ao Museu Nacional. Macau, Imprensa Nacional, 1916 (exemplar, com dedicatória, oferecido a José Vicente Jorge).
        • Homenagem aos Aviadores que Completaram o 1o Raid Aéreo Lisboa-Macau. Macau, 1924.
        • Oito Elegias Chinesas. Lisboa, Edições Descobrimento, 1931 (separata).
        • China, Estudos e Traduções, Lisboa, Agência Geral das Colónias, 1944.
        • Camões nas Paragens Orientais (em colaboração com Wenceslau de Moraes). Porto, Tipografia Mendonça, , 1951., (inclui o ensaio "Macau e a Gruta de Camões").
        • Testamento de Camilo Pessanha, Lisboa, Bertrand Editora, 1961.
        • Cartas a Alberto Osório de Castro, João Baptista de Castro e Ana de Castro Osório (organização de Maria José Lancastre). Lisboa, Imprensa Nacional, 1984.
        • Contos, Crónicas, Cartas Escolhidas e Textos de Temática Chinesa, Lisboa, Publicações Europa-América, 1988.
        • Camilo Pessanha – Prosador e Tradutor, organização, prefácio e notas de Daniel Pires; IPOR / ICM, 1992
      • Textos dispersos
        • "Estética Chinesa". A Verdade, Macau, (85) 2 Junho 1910.
        • Prefácio a Esboço Crítico da Civilização Chinesa de J. António Filipe de Morais Palha. Macau, Tipografia Mercantil de N. T. Fernandes e Filhos, 1912.
        • "Violoncelos". Centauro, Lisboa, (1) Outubro 1916.
        • "Macau". O Mundo Português, Lisboa, (17) Maio 1935.
        • "Uma Conferência de Camilo Pessanha". Persona, Porto, (11/ 12) Dezembro 1985.
        • "Legenda Budista". A Academia, Macau, (3) 1 Dezembro 1920.
        • "Vozes do Outono" in Anuário de Macau para 1927. Macau, coordenação do Governo da Província.
        • "Chon–Kôc–Chao" in China País de Angústia de Ruy Sant'Elmo, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1938.

Ver também

[editar | editar código]

Referências

  1. ↑ Pinheiro Mendes, Maria do Carmo. Camilo Pessanha e literatura portuguesa do final do Século XIX. Macau. China. Site Hoje Macau. Página visualizada em 26/07/2010.
  2. ↑ Oliveira Marques, A. H. (1985). Dicionário da Maçonaria Portuguesa. Lisboa: Delta. p. 1115
  3. ↑ «Entidades Nacionais Agraciadas com Ordens Portuguesas». Resultado da busca de "Camilo de Almeida Peçanha". Presidência da República Portuguesa. Consultado em 6 de setembro de 2021
  4. ↑ Rita Correia (26 de março de 2011). «Ficha histórica: Ave azul : revista de arte e critica (1899-1900)» (pdf). Hemeroteca Municipal de Lisboa. Consultado em 23 de Junho de 2014
  5. ↑ Rita Correia (19 de fevereiro de 2008). «Ficha histórica: Atlantida: mensário artístico, literário e social para Portugal e Brasil» (pdf). Hemeroteca Municipal de Lisboa. Consultado em 17 de Junho de 2014
  6. ↑ Contemporânea [1915]-1926 [cópia digital, Hemeroteca Digital]
  7. ↑ Alda Anastácio (24 de fevereiro de 2018). «Ficha histórica:Prisma : revista trimensal de Filosofia, Ciência e Arte (1936-1941)» (PDF). Hemeroteca Municipal de Lisboa. Consultado em 13 de julho de 2018
  8. ↑ http://www.rtp.pt/noticias/cultura/memoria-de-pessanha-quase-esquecida-em-macau-90-anos-depois-da-sua-morte_n899578
  9. ↑ «Toponímia de Lisboa - Edital municipal de 19 de julho de 1948 | Facebook». www.facebook.com. Consultado em 7 de setembro de 2024
  10. ↑ Carlos, Luís Adriano. Poesia moderna e dissolução. Universidade do Porto. Faculdade de Letras. 1989.
  11. ↑ Pinheiro Mendes, Maria do Carmo. Camilo Pessanha e literatura portuguesa do final do Século XIX. Site Hoje Macau. Página visualizada em 26/10/2010.

Bibliografia

[editar | editar código]
  • Saraiva, António José e Óscar Lopes (1993). História da Literatura Portuguesa. Oporto: Porto Editora, 17° ed. ISBN 972-0-30170-8
  • Biblioteca Nacional de Portugal. Camilo Pessanha.

Ligações externas

[editar | editar código]
A Wikisource contém fontes primárias relacionadas com Camilo Pessanha