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Feminismo da diferença

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Feminismo da diferença é um termo desenvolvido durante o debate igualdade-versus-diferença no feminismo americano para descrever a visão de que homens e mulheres são diferentes, mas que nenhum julgamento de valor pode ser colocado sobre eles e que ambos os sexos têm status moral igual como pessoas.[1][2]

A maioria das correntes do feminismo da diferença não argumentava que havia uma ligação biológica, inerente, a-histórica ou de outra forma "essencial" entre a feminilidade e os valores tradicionalmente femininos, hábitos mentais (muitas vezes chamados de "formas de saber")[3] ou traços de personalidade.[4] Essas feministas simplesmente buscavam reconhecer que, no presente, mulheres e homens são significativamente diferentes e explorar as características “femininas” desvalorizadas.[5] Essa variedade de feminismo de diferença também é chamada de "feminismo de gênero".[6][7]

No entanto, algumas formas de feminismo da diferença – como o feminismo cultural de Mary Daly – argumentam que as mulheres e os seus valores são superiores aos dos homens.[5][8] Há um debate contínuo sobre se o feminismo de Daly é essencialista.[8][9]

História

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A perspectiva "feminista da diferença" foi desenvolvida na década de 1980, em parte como uma reação ao popular feminismo liberal (também conhecido como feminismo igualitário), que enfatizava as semelhanças entre mulheres e homens, a fim de defender a igualdade de tratamento para as mulheres.[2] As feministas liberais buscavam tornar a sociedade e a lei neutras em termos de gênero, uma vez que consideravam o reconhecimento da diferença de gênero uma barreira aos direitos e à participação na democracia liberal.[4]

O feminismo da diferença, embora ainda visasse a igualdade entre homens e mulheres, enfatizava as diferenças entre eles e argumentava que a identidade ou a semelhança não são necessárias para que homens e mulheres, e valores masculinos e femininos, sejam tratados igualmente.[10] Sustentava que a neutralidade de gênero prejudicava as mulheres "seja por obrigá-las a imitar os homens, por privar a sociedade de suas contribuições distintivas ou por permitir que participem da sociedade apenas em termos que favorecem os homens".[4]

As feministas da diferença basearam-se em correntes de pensamento anteriores do século XIX, por exemplo, na obra da escritora alemã Elise Oelsner, que defendia que as mulheres não só deveriam ser admitidas em esferas e instituições anteriormente exclusivas dos homens (por exemplo, a vida pública, a ciência), como também se esperava que essas instituições mudassem de forma a reconhecer o valor de princípios éticos femininos tradicionalmente desvalorizados, como o cuidado. Sobre este último ponto, muitas feministas reinterpretaram a expressão "feminismo da diferença" de uma forma que questiona "que diferença faz o feminismo?" (por exemplo, na prática da ciência) em vez de "que diferenças existem entre homens e mulheres"?[3]

Críticas

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Na década de 1990, as feministas abordaram a lógica binária da igualdade-versus-diferença e avançaram a partir de abordagens pós-modernas e/ou desconstrucionistas que desmantelavam ou não dependiam dessa dicotomia.[1][2][10][11] Para elas, ao tratar as mulheres como um grupo homogêneo, as feministas da diferença estavam reproduzindo a mesma lógica que buscavam contestar.[2]

Alguns têm argumentado que o pensamento de certas feministas proeminentes da segunda onda, como a psicóloga Carol Gilligan e a teóloga Mary Daly, é essencialista. Na filosofia, o essencialismo é a crença de que "(pelo menos alguns) objetos têm (pelo menos algumas) propriedades essenciais".[12] No caso da política sexual, o essencialismo significa que “mulheres” e “homens” têm essências fixas ou propriedades essenciais (por exemplo, traços comportamentais ou de personalidade) que não podem ser alteradas. No entanto, as interpretações essencialistas de Daly e Gilligan foram questionadas por algumas acadêmicas feministas, que argumentam que as acusações de "essencialismo" são frequentemente usadas mais como termos de abuso do que como críticas teóricas baseadas em evidências,[13][14] e não refletem com precisão as opiniões de Gilligan ou Daly.[9][13]

Na França

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Comumente rotulado de "feminismo francês",[15] o trabalho de Hélène Cixous, Luce Irigaray e Julia Kristeva tem sido considerado uma forma de feminismo da diferença.[15][16][17] Para essas autoras de afiliação psicanalítica, a busca pela igualdade seria um apagamento falocêntrico das especificidades do corpo feminino.[15] Tal como as diferencialistas americanas, “feministas francesas são regularmente acusadas de essencialismo.”[15]:101

Referências

  1. 1 2 Scott, Joan W. (1988). «Deconstructing Equality-versus-Difference: Or, the Uses of Poststructuralist Theory for Feminism». Feminist Studies, Inc. Feminist Studies. 14 (1): 33–50. ISSN 0046-3663. doi:10.2307/3177997
  2. 1 2 3 4 Ebert, Teresa L. (1991). «The "Difference" of Postmodern Feminism». National Council of Teachers of English. College English. 53 (8): 886–904. ISSN 0010-0994. doi:10.2307/377692. Cópia arquivada em 11 de janeiro de 2026
  3. 1 2 Schiebinger, Londa (julho de 2000). «Has Feminism Changed Science?». Signs: Journal of Women in Culture and Society (em inglês). 25 (4): 1171–1175. ISSN 0097-9740. doi:10.1086/495540
  4. 1 2 3 Jensen, Pamela Grande, ed. (1996). Finding a new feminism: rethinking the woman question for liberal democracy. Lanham: Rowman & Littlefield. ISBN 978-0-8476-8188-4
  5. 1 2 Tandon, Neeru (2008). Feminism: a paradigm shift. New Delhi: Atlantic Publishers. p. 68. ISBN 978-81-269-0888-2
  6. ↑ Fowler, Robert Booth (1999). Enduring liberalism: American political thought since the 1960s. Lawrence: University Press of Kansas. p. 133. ISBN 978-0-7006-0974-1
  7. ↑ Ford, Lynne E., ed. (2008). Encyclopedia of women and American politics. New York: Facts On File. ISBN 978-0-8160-5491-6
  8. 1 2 Sandilands, Catriona (1999). The Good-Natured Feminist Ecofeminism and the Quest for Democracy. [S.l.: s.n.] pp. chapter 5: "Cyborgs and Queers"
  9. 1 2 Hoagland, Sarah Lucia; Frye, Marilyn, eds. (2000). Feminist interpretations of Mary Daly. University Park: Pennsylvania State University. ISBN 978-0-271-02018-1
  10. 1 2 Voet, Rian (1998). Feminism and Citizenship. London: SAGE Publications Ltd. ISBN 9781446228043
  11. ↑ Bock, Gisela; James, Susan, eds. (1992). Beyond equality and difference: citizenship, feminist politics, and female subjectivity. London: Routledge. ISBN 978-0-415-07988-4
  12. ↑ Robertson Ishii, Teresa; Atkins, Philip (2023). Zalta, Edward N.; Nodelman, Uri, eds. «Essential vs. Accidental Properties». Metaphysics Research Lab, Stanford University. Consultado em 26 de junho de 2024
  13. 1 2 Heyes, Cressida J. (1997). «Anti-Essentialism in Practice: Carol Gilligan and Feminist Philosophy». Hypatia. 13 (3): 142–163. doi:10.1111/j.1527-2001.1997.tb00009.x
  14. ↑ Braidotti, Rosi (1992). "Essentialism" in Feminism and Psychoanalysis: A Critical Dictionary. [S.l.: s.n.]
  15. 1 2 3 4 Gambaudo, Sylvie A. (maio de 2007). «French Feminism vs Anglo-American Feminism: A Reconstruction». European Journal of Women's Studies (em inglês) (2): 93–108. ISSN 1350-5068. doi:10.1177/1350506807075816
  16. ↑ Garcia, Carla Cristina (2007). Breve história do feminismo. São Paulo: Claridade
  17. ↑ Valpione, Giulia (dezembro de 2022). «Philosophy and its Institutions: Politics at the Heart of the Canon». Hegel Bulletin (em inglês) (3): 353–370. ISSN 2051-5367. doi:10.1017/hgl.2022.32