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Platão

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
 Nota: Para outros significados, veja Platão (desambiguação).
Platão
Πλάτων, Plátōn
Busto de mármore de Platão, com cabelos ondulados e barba longa.
Cópia de um busto do final do século IV a.C.
NascimentoCerca de 428 ou 427 a.C.
Atenas, Grécia Clássica
MorteCerca de 348 ou 347 a.C., aproximadamente 80 anos
Atenas, Grécia Clássica
Obra filosófica
EraFilosofia antiga
EscolaFundador da Academia
Principais interessesMetafísica, cosmologia, ética, política, estética, retórica, sofística, linguagem e dialética
Ideias notáveisDialética, maiêutica, alegoria da caverna, teoria das formas, participação, reminiscência, imitação e rei-filósofo
Trabalhos notáveisO Banquete, A República, Fédon, Teeteto, Sofista, Fedro, Górgias, Timeu e Parmênides
InfluênciasPré-socráticos, Sócrates, mistérios egípcios, orfismo e Pitágoras
InfluenciadosGrande parte da filosofia ocidental e parte da filosofia islâmica

Platão (em grego clássico: Πλάτων, Plátōn, /plá.tɔːn/,[1] "amplo"[2]) nasceu em 428 ou 427 a.C.[nota 1] em Atenas[nota 2] e morreu em 348 ou 347 a.C.[nota 3] Foi um filósofo da Grécia Clássica, contemporâneo da democracia ateniense e dos sofistas, cujas posições frequentemente criticou. Retomou o pensamento de predecessores, sobretudo de Sócrates, de quem foi aluno, mas também de Parmênides, Heráclito e Pitágoras, para elaborar sua própria filosofia. Seu pensamento percorre campos como a metafísica, a ética, a estética e a política. Fundou uma Academia em Atenas, onde Aristóteles foi aluno e depois professor durante cerca de vinte anos. Platão ajudou a construir os alicerces da filosofia natural, da ciência e da filosofia ocidental, e também tem sido frequentemente citado como um dos fundadores da religião ocidental, da ciência[12] e da espiritualidade.[13] O assim chamado neoplatonismo de filósofos como Plotino e Porfírio influenciou Santo Agostinho e, portanto, o cristianismo, bem como a filosofia árabe[14][15] e judaica.[16][17]

Seus escritos, quase todos em forma de diálogo, contêm as primeiras formulações clássicas dos problemas centrais da história da filosofia ocidental.[18] Cada diálogo permite investigar um tema, como o belo ou a coragem, recorrendo à dialética e ao questionamento socrático. Platão também examinou a origem e a organização do mundo sensível. Na reflexão sobre as Ideias, geralmente chamada de teoria das Formas ou teoria das Ideias, a realidade sensível é um conjunto de objetos que participam de seus modelos imutáveis. Destaca-se como epônimo do amor platônico e dos sólidos platônicos e como fundador de conceitos tais como o de demiurgo e a Ideia do Bem, que em A República ocupa uma posição central na explicação do conhecimento e da realidade inteligível.[p. 1] Na filosofia política do diálogo, a justiça da cidade depende de uma ordem entre suas partes, análoga à que deve existir na alma em sua chamada teoria tripartite.[p. 2] Essa concepção leva à ideia do rei-filósofo.

Platão já foi descrito como racionalista, realista, idealista e dualista e a ele tem sido associadas muitas das ideias que inspiraram essas filosofias mais tarde.[19] O pensamento de Platão não é monolítico. Parte dos diálogos termina em aporias filosóficas, sem oferecer resposta única e definitiva aos problemas levantados, o que levou os comentadores a debater por muito tempo se Platão defendia uma filosofia dogmática ou cética. Pesquisadores da chamada Escola Tübingen e de Milão alegam que seu corpo textual contém fragmentos de doutrinas não escritas que eram lecionadas oralmente na sua Academia.[20][21]

Ao contrário do trabalho de quase todos os seus contemporâneos, acredita-se que o corpo inteiro de trabalho de Platão tenha sobrevivido intacto por mais de 2 400 anos.[22] Embora sua popularidade tenha oscilado ao longo dos anos, os trabalhos de Platão nunca ficaram sem leitores desde a época em que foram escritos.[23] Embora filósofos gregos anteriores a ele já existissem, Platão é frequentemente associado à consolidação da filosofia como disciplina.[24] Alfred North Whitehead caracterizou a tradição filosófica europeia como "uma série de notas de rodapé a Platão".[25]

Biografia

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Cabeça de mármore de um homem de cabelos ondulados e barba curta.
O retrato feito por Silanião para a Academia, por volta de 370 a.C., preserva uma representação antiga de seu fundador. Esta cópia está na Centrale Montemartini.

Há poucas informações seguras sobre a vida de Platão.[26] A mais antiga biografia que chegou até nós, De Platone et dogmate eius,[27] foi escrita por Apuleio, autor latino do século II. As demais biografias, de Diógenes Laércio, Olimpiodoro, o Jovem,[28] dos autores anônimos dos Prolegômenos e da Suda,[29] foram escritas mais de quinhentos anos depois de sua morte.[nota 4] Essa cronologia pressupõe que os fragmentos dos Academica de Filodemo não sejam uma biografia. Caso sejam, Filodemo deve ser colocado antes de Apuleio. Com exceção de alguns dados aceitos como certos, as informações sobre sua vida exigem cautela.

Juventude

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Ver artigo principal: Juventude de Platão.

Platão nasceu em Atenas no demo de Colito,[30] provavelmente em 427-428 a.C.[31] (no sétimo dia do mês Thargêliốn[32]), cerca de um ano após a morte do estadista Péricles,[31] e morreu em 348 a.C.[31] (no primeiro ano da 108a Olimpíada[33]).

A data tradicional do nascimento de Platão (428/427) é baseada em uma interpretação dúbia de Diógenes Laércio, que afirma: "Quando Sócrates foi embora, Platão se juntou a Crátilo e Hermógenes, que filosofou à maneira de Parmênides. Então, aos vinte e oito anos, segundo Hermódoro, Platão foi para Euclides, em Megara".[34] Em sua Sétima Carta, Platão observa que a sua idade coincidiu com a tomada do poder pelos Trinta Tiranos, comentando: "Mas um jovem com idade inferior a vinte seria motivo de chacota se tentasse entrar na arena política". Assim, a data de nascimento de Platão seria 424/423.[34]

Platão vinha de uma família aristocrática.[35] Sua genealogia paterna é incerta. O pai, Aristão de Atenas,[36] afirmava descender de Codro, último rei lendário de Atenas. A genealogia da mãe, Perictíone,[37] é mais bem estabelecida. Ela descendia de Drópidas,[p. 3] irmão do legislador Sólon,[p. 4] e era parente de Crítias e irmã de Cármides, ambos ligados aos Trinta Tiranos que governaram Atenas em 404 a.C.[38] A juventude de Platão transcorreu em meio a agitações políticas e a desordens devido à Guerra do Peloponeso, à instabilidade política reinante na cidade de Atenas que foi tomada pela Oligarquia dos Quatrocentos e assim submeteu-se ao governo dos Trinta Tiranos.[39]

Árvore genealógica que liga Dropides, Crítias, Glauco e Périctione à família de Platão; os nomes estão em francês.
Os parentescos tradicionalmente atribuídos a Platão o situam em uma família aristocrática ligada a figuras da política ateniense, como Crítias e Cármides.

Platão tinha dois irmãos, Adimanto de Colito e Glauco; sua ordem de nascimento é discutida,[40] e uma irmã, Potone, mãe de Espeusipo, que o sucedeu na direção da Academia.[35] Sua mãe ficou viúva pouco depois de seu nascimento e se casou com o próprio tio materno, Pirílampes. Dessa união nasceu Antifonte, meio-irmão de Platão e narrador do diálogo Parmênides.[41]

A tradição formada em torno do nome "Platão" ter sido um apelido é considerada espúria e tida como refutada por pesquisadores como W. K. C. Guthrie, Debra Nails e Robin Waterfield.[42][41][43] Estudiosos recentes têm argumentado que isso é uma lenda que teria se originado no período helenístico.[44] Essa tradição teria surgido levando em conta a forte prática de se nomear o filho segundo o nome do avô, no entanto isso ocorria somente para com o filho mais velho.[41][43] Tal alegação nos foi preservada a partir de Diógenes Laércio, segundo o qual o filósofo teria sido nomeado Arístocles como seu avô, mas seu treinador de luta, Aristão de Argos, o apelidara posteriormente de Platon, que significa "grande", por conta de sua figura robusta.[45] De acordo com as fontes mencionadas por Diógenes (todas datam do período alexandrino), Platão derivou seu nome a partir da "amplitude" (platytês) de sua eloquência, ou então, porque possuía a fronte (platýs) larga.[46] No entanto, Platão era um nome comum, dos quais 31 casos são conhecidos apenas em Atenas.[42]

Formação

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Taça grega de figuras vermelhas, decorada com mestres e alunos em atividades de leitura e música.
A educação ateniense reunia letras, música e exercícios físicos. As cenas escolares pintadas por Dúris ajudam a situar a formação tradicional recebida por Platão.

Diógenes Laércio menciona Dionísio, mestre-escola, gramático e professor de letras, entre os professores de Platão.[47] Seu mestre de ginástica, ou pedótriba[nota 5], teria sido o lutador Aristão de Argos, que o teria chamado de "Platão" por sua constituição física.[nota 6] O adjetivo grego πλατύς, platýs, significa "largo", e ele "tinha ombros largos".[35] Teria estudado também com Teodoro de Cirene e com Sócrates. No diálogo Teeteto, Teodoro é apresentado como professor do jovem Teeteto, não como aluno deste.[48]

Olimpiodoro, o Jovem atribui a Platão vitórias atléticas nos Jogos Olímpicos e nos Jogos Ístmicos,[p. 5][p. 6] nos quais teria competido como lutador.[47]

Para Plutarco,[49] a música ocupava um lugar central na educação defendida por Platão.[nota 7]

Platão recebeu a educação tradicional de sua classe social, mas os detalhes de sua formação apresentados por Diógenes Laércio parecem ser uma "ilustração narrativa das principais correntes teóricas que teriam agido sobre Platão".[p. 7] A biografia do jovem Platão seria, assim, uma invenção feita para corresponder a posteriori a seus escritos.[nota 8] Apuleio afirma que ele primeiro se aproximou dos princípios de pensadores jônicos, como Heráclito, Parmênides, Zenão de Eleia e Anaxágoras, e só depois da morte de Sócrates se dedicou à doutrina de Pitágoras.

Durante sua formação, foi colega de Isócrates, que, para Diógenes Laércio, era seis anos mais velho.[47]

Platão e a política

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Área rochosa da Pnyx, com degraus e tribuna à direita e a Acrópole ao fundo.
A vida política ateniense tinha na assembleia de cidadãos um de seus espaços centrais. A Pnyx conserva a tribuna dos oradores, em primeiro plano, com a Acrópole ao fundo.

Alguns parentes de Platão participaram do governo oligárquico dos Trinta, embora sua família não fosse ligada apenas a essa facção: seu padrasto Pirílampes era associado a Péricles. Platão criticou a violência dos Trinta na Carta VII.[50][p. 8] A fama da família parece ter sido motivo de orgulho para ele, que a menciona no Cármides[p. 9] e no Timeu.[p. 10] Em A República, apresenta a política como uma honra, o maior dever do bom cidadão e o ponto mais alto da vida filosófica.[p. 11]

Platão abandonou cedo a carreira política, caminho por excelência do homem livre em Atenas. Na Carta VII, cuja autenticidade é discutida,[nota 9] ele conta que considerou entrar na política e recebeu de parentes e conhecidos um convite para participar do governo dos Trinta Tiranos, um governo despótico e sanguinário que teria ordenado cerca de 1.500 execuções sumárias. Teria desistido da vida pública por repulsa aos excessos e à violência dos partidos.[p. 12]

Na juventude, eu sentia o mesmo que muitos nessa situação. Imaginava que, assim que me tornasse senhor de mim, iria diretamente cuidar dos assuntos comuns da cidade. Eis como o acaso me fez encontrar os assuntos da cidade. O regime de então era alvo de críticas violentas por parte da maioria, e estourou uma revolução. [...] Ao observar tudo isso e os homens que se ocupavam da política, quanto mais eu examinava as leis e os costumes e avançava em idade, mais difícil me parecia administrar com justiça os assuntos da cidade. Não era possível fazê-lo sem amigos e companheiros de confiança, e não era fácil encontrá-los entre aqueles que estavam à mão, pois nossa cidade já não era administrada pelos costumes e hábitos de nossos pais.
Carta VII, 324.

Em 403 a.C., Trasíbulo e Ânito restabeleceram a democracia em Atenas. Quatro anos depois, Ânito seria um dos acusadores de Sócrates.

Encontro com Sócrates

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Pintura de Sócrates sentado num leito, erguendo um dedo e recebendo uma taça, cercado por homens que lamentam.
A Morte de Sócrates, de Jacques-Louis David, é uma representação posterior do episódio que marcou a trajetória de Platão. O Fédon narra os últimos momentos de seu mestre.

Platão conheceu Sócrates por volta de 407 a.C., aos vinte anos. Cláudio Eliano conta que Platão tinha decidido deixar Atenas para entrar no exército. Ao encontrá-lo comprando armas, Sócrates o teria feito mudar de ideia e o convencido a se dedicar à filosofia.[51] Eliano esclarece, porém, que ouviu a história de terceiros e não sabe se ela é verdadeira.

Sócrates deixava de lado os problemas cosmológicos e se ocupava do ser humano e dos princípios que deveriam orientar sua vida. Platão passou a se interessar pela moral e adotou a arte socrática de perguntar e filosofar, a dialética. Depois desse encontro, desistiu de concorrer nos concursos de tragédia grega e queimou todos os seus escritos.[52] A datação dos primeiros diálogos é incerta; uma hipótese atual é que Platão tenha começado a escrevê-los depois da morte de Sócrates, já na casa dos trinta anos.[24] Diógenes Laércio, por sua vez, transmite a anedota de que Sócrates, ao ouvir a leitura do Lísis, teria exclamado: "Por Héracles, quantas falsidades esse jovem diz sobre mim!"[p. 13] Platão acompanhou Sócrates por nove anos, de 407 até a morte do mestre, em 399 a.C. Doente, tomado de pesar e indignação depois do julgamento e da condenação de Sócrates, não pôde assistir à sua morte.[p. 14] Hermodoro de Siracusa conta que, receoso pelo destino dos discípulos de Sócrates, Platão se refugiou com alguns amigos na casa de Euclides de Mégara.[p. 15]

Viagens de formação

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Mapa do sul da Itália e da Sicília, com cidades gregas e áreas dialetais identificadas em português.
As viagens de formação aproximaram Platão das comunidades gregas do sul da Itália. Tarento e Crotona, assinaladas no mapa de cidades e dialetos da Magna Grécia, estão ligadas a seus contatos com os pitagóricos.

Os testemunhos de Plutarco,[53] Estrabão, Cícero e Hermodoro de Siracusa apontam para uma viagem de Platão ao Egito. Diógenes Laércio[54] escreve: "Aos vinte e oito anos, como conta Hermodoro, ele [Platão] foi a Mégara, para a casa de Euclides, acompanhado de alguns outros alunos de Sócrates, que havia morrido." Depois foi a Cirene, encontrar Teodoro de Cirene, também chamado de Teodoro, o matemático. Dali partiu para a Itália, para visitar Filolau de Crotona e Êurito de Tarento, dois pitagóricos. Alguns relatos atribuem especial importância e duração a uma viagem ao Egito.[55] Teria ficado com os sacerdotes do alto clero de Heliópolis.[p. 16] A viagem ao Egito é, porém, discutida,[56] pois seu conhecimento do país parece indireto e estereotipado. As referências ao Egito em seus escritos, por si sós, não confirmam que tenha visitado o país.[57][p. 17][58][59][60][61][p. 18][62] Plutarco conta que Platão teria vendido azeite no Egito para pagar a viagem de volta. Teria passado também por Tarento, no sul da Itália, na região então chamada de Magna Grécia, onde conheceu o pitagórico Filolau de Crotona e seus ouvintes, Timeu de Locros e talvez Arquitas de Tarento. A Carta VII, porém, dá a entender que Platão só conheceu Arquitas na segunda viagem à Sicília. Fócio afirma que nessa ocasião ele se tornou seu discípulo.[63] O contato com os pitagóricos integra a tradição sobre suas viagens; passagens do Fédon e do Timeu mostram o interesse de seus diálogos pela alma, pelos números e pela organização do cosmo, mas não comprovam que essas ideias tenham sido adquiridas naquela viagem.[p. 19]

Primeira viagem à Sicília

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Panorama noturno de Ortígia, com edifícios e iluminação refletida no mar.
Siracusa, da qual Ortígia faz parte, foi o cenário dos encontros de Platão com Díon e com os governantes Dionísio I e Dionísio II. Essas relações motivaram suas viagens políticas à Sicília.

Por volta de 388–387 a.C., Platão visitou Siracusa, governada por Dionísio I. Nessa ocasião, aproximou-se de Díon, cunhado do tirano. A Carta VII situa a primeira viagem à Sicília quando Platão tinha cerca de quarenta anos e descreve o interesse de Díon pela filosofia e por um governo orientado por boas leis. Essa relação explica os convites posteriores para que Platão retornasse a Siracusa e tentasse influenciar Dionísio II.[p. 20]

As biografias antigas apresentam versões diferentes do rompimento com Dionísio I e do regresso a Atenas. Diógenes Laércio relata que Platão foi entregue ao espartano Pólis, levado a Egina e vendido como escravo, sendo resgatado pelo cirenaico Aniceres.[nota 10] Esses relatos tardios fazem parte da tradição biográfica sobre Platão, e suas circunstâncias não são consideradas inteiramente seguras.[p. 21][64]

Academia e discussão das Ideias

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Mapa de Atenas e do Pireu, com a Academia indicada na parte superior.
A Academia ficava ao norte da Atenas Antiga, perto de Colono. Essa localização está assinalada na planta, acima do núcleo urbano.

Em Atenas, Platão se reuniu com um círculo de investigação próximo de Colono e do ginásio de Academo. A formação da "Academia" costuma ser situada entre 387 e 383 a.C., mas não há uma data formal de fundação: o grupo se desenvolveu gradualmente.[nota 11] A tradição também aproxima a organização da Academia da dos pitagóricos. Platão ensinou ali por cerca de quarenta anos.[64] A inscrição "Que ninguém entre aqui sem saber geometria",[65] que teria existido no frontão da Academia, provavelmente é uma lenda. O ensino das ciências exatas preparava para o estudo da filosofia e de suas aplicações políticas. Entre os personagens que fontes antigas e estudos modernos associam à Academia estão:

Mosaico com sete homens reunidos ao ar livre, alguns sentados, diante de uma esfera.
Este mosaico de Pompeia é tradicionalmente interpretado como uma representação da Academia. O estudo em comum é central na escola que Platão dirigiu durante cerca de quarenta anos.

As atividades da Academia incluíam a investigação matemática e filosófica, a discussão dos diálogos e o convívio entre seus membros. As fontes não permitem reconstruir com precisão uma rotina de aulas ou um currículo único;[nota 13] a instituição se desenvolveu gradualmente em torno de Platão e de seus colaboradores.[64]

A Academia manteve sua atividade por cerca de três séculos, até a tomada de Atenas por Sula, em 86 a.C. Em 176 d.C., Marco Aurélio instituiu em Atenas cátedras[nota 14] para o ensino das principais escolas filosóficas. A escola neoplatônica ateniense, organizada em torno de Plutarco de Atenas no início do século V, não tinha continuidade institucional com a Academia original. Sua atividade foi interrompida pelas medidas de Justiniano contra o ensino pagão[nota 15] em 529.[64][70]

Para alguns intérpretes, as dificuldades expostas em diálogos escritos por volta de 370 a.C. indicam uma revisão de aspectos da teoria das ideias. Essa leitura considera, entre outros, os argumentos de Parmênides e Sofista.[71] Os diálogos Parmênides e Sofista levantam dificuldades para a teoria, sem que seja possível fixar uma "crise" biográfica a partir deles.[72]

Os diálogos investigam a dificuldade de combinar as ideias entre si,[nota 16] em grego σύμμιξις, sýmmixis[nota 17], sobretudo de conciliar:

Em um mito do Político, o Estrangeiro descreve ciclos em que o cosmo é guiado pela divindade e outros em que segue seu curso sem essa direção: "Este universo, ora a divindade dirige todo o seu percurso, ora o abandona a si mesmo." O relato não basta, por si só, para provar uma influência de Eudoxo de Cnido ou uma adesão de Platão a um dualismo de origem oriental.[p. 23]

Últimas viagens e últimos escritos

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Fragmento escuro de papiro montado sobre papel claro e protegido por uma moldura.
Exemplo de papiro carbonizado de Herculano, do tipo de material usado para investigar a história da Academia e o sepultamento de Platão. A leitura desses documentos complementa os relatos antigos.

No início de 367 a.C., Platão deixou a direção da escola com seu aluno Eudoxo de Cnido e fez uma segunda viagem política à Sicília. Díon de Siracusa lhe pediu que ensinasse filosofia a seu cunhado Dionísio II, filho de Dionísio, o Velho. Logo, porém, o aluno expulsou Díon, suspeito de conspiração, e manteve Platão preso por um ano na cidadela de Ortígia.[p. 24] Platão teria ido à Sicília com a intenção de reformar o governo e criar uma cidade regida pelos princípios filosóficos apresentados nos diálogos de A República, 372.[73]

Sua terceira e última viagem política à Sicília começou por volta de 361 a.C.; em 360, Platão já estava de volta a Atenas. Dionísio II havia prometido perdoar Díon se Platão voltasse à ilha pela terceira vez.[74] Aos 68 anos, Platão confiou a Academia a Heráclides do Ponto e aceitou,[p. 25] dessa vez por dever de amizade. Dionísio, porém, não cumpriu as promessas relativas a Díon, a quem atribuía intenções perigosas. Platão perdeu novamente a liberdade.[75] Como sua vida corria perigo, o pitagórico Arquitas de Tarento precisou enviar um navio para libertá-lo. Foi a ocasião de um segundo contato mais profundo com o pitagorismo. Uma tradição antiga afirma que Platão pediu a Díon que comprasse de Filolau de Crotona três livros atribuídos ao pitagorismo por cem minas de prata[nota 21].[p. 26] A historicidade dessa compra é contestada; os três escritos não seriam obras de Filolau, e o relato pode ter servido para lhes atribuir uma procedência prestigiosa.[76] O Timeu se aproxima do pitagorismo ao examinar a alma do mundo, a harmonia[nota 22] e a mediedade, em 35–44 e 54–55. No Filebo, 16c–d, surge a oposição pitagórica entre Limitado e Ilimitado[nota 23]. Nos treze últimos anos de sua vida, de 360 a 347 a.C., Platão parece não ter saído de Atenas. Na Academia, continuou a escrever e estudar, redigindo Timeu, Leis e Crítias. Os dois últimos ficaram inacabados.

Segundo a Carta VII, Platão reencontrou Díon de Siracusa em Olímpia, durante os Jogos Olímpicos, e recusou apoiar uma expedição contra Dionísio II.[p. 27] Em 357 a.C., Díon tomou Siracusa de Dionísio II, mas alguns anos depois foi assassinado por seu companheiro, o retor ateniense Calipo de Atenas.[77] Platão morreu em Atenas em 348 ou 347 a.C., por volta dos 80 anos; segundo uma tradição antiga, a morte ocorreu "durante um banquete de casamento".[p. 28] A tradição simbólica fixa sua idade em 81 anos,[nota 24] pois 81 é o quadrado de 9.[p. 29]

A tradição situa seu sepultamento na Academia. Em abril de 2024, a equipe do projeto GreekSchools apresentou uma nova leitura da História da Academia, de Filodemo de Gadara, preservada em um papiro carbonizado de Herculano. Segundo a interpretação dos pesquisadores, o texto situa o sepultamento em um jardim reservado a Platão, próximo de um pequeno santuário das Musas na Academia.[nota 25] Trata-se de uma indicação textual mais precisa, não da descoberta arqueológica do túmulo.[78][79]

Fontes do pensamento de Platão

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Relevo de pedra com figuras dispostas em vários níveis, incluindo um homem sentado num trono e um grupo de mulheres.
A tradição poética de Homero, celebrada neste relevo, integrava a cultura que Platão examinou criticamente. Seus diálogos retomam tanto os poetas quanto os filósofos anteriores.

Em seu estudo sobre Platão, Simone Weil[80] afirma que "ao contrário de todos os outros filósofos, Platão repete constantemente que nada inventou, que apenas segue uma tradição. Busca ora os filósofos anteriores, dos quais temos fragmentos e cujos sistemas assimilou em uma síntese superior, ora seu mestre Sócrates, ora tradições gregas secretas sobre as quais quase nada sabemos além do que ele próprio nos deixou, a tradição órfica, a dos mistérios de Elêusis, a pitagórica, que é a mãe da civilização grega, e muito provavelmente tradições do Egito e de outros países do Oriente".

Sócrates e os sofistas são provavelmente as figuras mais nítidas nos diálogos de Platão, o primeiro como interlocutor principal, os outros como adversários.[81] Os diálogos, porém, contêm outros pensadores e escritores e retomam muitos aspectos da cultura da época.

Nem sempre é possível precisar quanto um aspecto dessa cultura alimenta o pensamento de Platão ou reconhecer com segurança uma alusão. Suas referências costumam ser indiretas e, ao contrário de Aristóteles, ele nunca faz uma exposição doxográfica de uma questão.[nota 26][82]

Além de Sócrates e dos sofistas, os pré-socráticos e Homero estão entre os autores que compõem o ambiente cultural de seus escritos.

Pitágoras

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Vista da orla de Crotona, com edifícios junto ao mar ao pôr do sol.
Em Crotona, onde viveu Pitágoras, a tradição pitagórica associou a matemática à vida filosófica. Platão retomou temas dessa tradição, sobretudo sobre os números e a alma.

Pitágoras e, de modo mais amplo, os pitagóricos exerceram forte ação sobre o pensamento de Platão, embora seja difícil precisar em quais pontos. O ensino pitagórico era reservado aos iniciados[nota 27], e há apenas duas referências explícitas nos diálogos de Platão. Elas pouco esclarecem sobre o que ele pode ter tomado do pitagorismo.[83]

Na Metafísica, Aristóteles afirma que a filosofia de Platão segue de perto o ensino dos pitagóricos.[84] Cícero retoma a ideia: Platonem ferunt didicisse Pythagorea omnia, "Diz-se que Platão deve tudo a Pitágoras".[85] Em sua História da Filosofia Ocidental, Bertrand Russell afirma que o efeito do pensamento de Pitágoras sobre Platão e outros autores foi tão grande que ele pode ser chamado de o filósofo que mais influiu no Ocidente.[86]

Para R. M. Hare,[87] o pensamento dos pitagóricos chegou à filosofia de Platão principalmente de três maneiras:

  • A República pode ser lida como um projeto próximo da comunidade de pensadores altamente organizada que Pitágoras fundou em Crotone.
  • Platão compartilha com Pitágoras a ideia de que a matemática e, de modo mais amplo, o pensamento por abstração são o fundamento de tudo, inclusive da filosofia, da ciência[nota 28] e da moral.[nota 29]
  • Platão e Pitágoras têm uma abordagem mística da alma e de seu lugar no mundo material, como se vê na seção sobre a alma. Provavelmente os dois receberam elementos do orfismo.[88][86]

Parmênides e Heráclito

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Cabeça de mármore de Parmênides, com barba e cabelos curtos.
A reflexão de Parmênides sobre o ser é um dos pontos de partida de Platão. No Sofista, a possibilidade do discurso falso exige reconsiderar a relação entre ser e não-ser.

Em Sofista, Platão apresenta Parmênides como o pai da filosofia que é preciso "matar" para explicar o discurso falso.[nota 30] Se, para Parmênides, só o ser é, não seria possível falar do que não é. O discurso falso dos sofistas, porém, existe. É preciso, então, percorrer o caminho proibido por Parmênides, no qual o não-ser existe sem, contudo, ser.[89]

O pensamento de Platão retoma também o de Heráclito:[90] "Platão, desde a juventude, familiarizara-se, no convívio com Crátilo,[91] seu primeiro mestre, com a opinião de Heráclito de que todos os objetos sensíveis estão em fluxo perpétuo e de que não pode haver ciência desses objetos."[92] Platão retoma, por exemplo, a tese heraclítica do fluxo perpétuo, mas acrescenta a ela sua teoria das Ideias. A extensão e a natureza exata dessas relações são pouco conhecidas.[93]

Sócrates e Platão

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Cabeça de mármore de Sócrates, calvo, de nariz largo e barba longa.
Sócrates é o interlocutor central de grande parte dos diálogos. Sua maneira de interrogar e sua conduta serviram de referência à investigação filosófica de Platão.

Platão foi "discípulo"[nota 31][94][95] de Sócrates, mas pouco se sabe sobre a natureza exata de sua relação. Em Opiniões dos filósofos,[96] Plutarco diz que as opiniões de Sócrates e Platão sobre qualquer assunto eram idênticas. Platão provavelmente conheceu Sócrates por volta de 407 a.C., aos vinte anos, e conviveu com ele por oito ou nove anos. Quando Sócrates morreu, teria cerca de 28 anos.[97] Não se sabe que posição ou função Platão tinha entre os discípulos de Sócrates.[nota 32]

Nos diálogos geralmente considerados autênticos, Sócrates só está ausente das Leis, embora nem sempre seja o protagonista. No Sofista e no Político, ele participa da abertura, mas a condução da investigação cabe ao Estrangeiro de Eleia[nota 33].[98] Essa presença constante mostra quanto Sócrates agiu sobre o pensamento de Platão. Durante a vida do mestre, os integrantes do círculo socrático, vindos de todos os campos da filosofia, "comungavam não na aceitação de uma doutrina filosófica, mas em uma espécie de culto afetivo ao caráter do mestre, na confiança em sua orientação espiritual".[99] A pessoa de Sócrates explica a ligação com Platão. Para ele e os demais integrantes do círculo, a conduta do mestre era um exemplo sobre-humano, e seu pensamento, objeto de meditação e exame. No Fédon,[p. 14] ao listar os próximos de Sócrates presentes em sua morte, Platão chama a atenção para a própria ausência. "Platão, creio, estava doente", diz Fédon. A formulação hipotética, "creio", posta na boca do interlocutor mais bem informado, seria uma afirmação implícita de que o relato da morte do mestre não é fiel.[nota 34][100] Os diálogos contêm elogios a Sócrates, pronunciados por personagens que provavelmente falam por Platão, embora isso não possa ser afirmado com certeza. O único trecho em que Platão fala de Sócrates em seu próprio nome é a Carta VII, cuja autenticidade é discutida:[p. 30]

Entre outras coisas, Sócrates, meu amigo, mais velho que eu, de quem, penso, não me envergonharia de dizer que era o homem mais justo daquela época, foi enviado por eles [os Trinta] com outros para buscar um cidadão e levá-lo à força à morte, com o propósito evidente de torná-lo cúmplice de seus atos, por vontade própria ou à força. Ele, porém, recusou-se a obedecer e preferiu correr o risco de suportar tudo a participar de seus atos ímpios.

A caracterização de Sócrates nos diálogos de Platão é explícita. No Lísis, ele é o amigo verdadeiro, no Laques, um homem corajoso, e no Cármides, um sábio. Seus interlocutores também chamam a atenção para sua ἀτοπία, atopía[nota 35], seu jeito desconcertante,[101] que se manifesta na manobra irônica de fingir ingenuidade e reconhecer o saber do outro. Mesmo que Platão por vezes transforme o Sócrates real e o apresente, em certa medida, como um "super-homem", muitos traços que parecem tomados de situações vividas dão a ele um retrato vivo, distante do sábio abstrato dos estoicos.[102]

A distinção entre o Sócrates histórico e o personagem dos diálogos constitui o problema socrático. Além de Platão, as fontes principais são Xenofonte e Aristófanes, cujos objetivos e retratos não coincidem. As diferenças entre os diálogos também dificultam determinar quais posições remontam a Sócrates e quais pertencem à elaboração filosófica de Platão.[103]

Contexto e formas de expressão do pensamento de Platão

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Contexto filosófico

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Afresco com numerosos filósofos sob grandes arcos; Platão e Aristóteles ocupam o centro.
A Escola de Atenas, de Rafael, reúne em uma representação renascentista diferentes tradições filosóficas gregas. Platão construiu sua reflexão no diálogo e no confronto com saberes anteriores.

Platão elaborou sua filosofia em meio aos pré-socráticos, aos sofistas e ao saber tradicional transmitido pelos poetas, que era a base da educação grega.[nota 36] Opôs-se a cada um desses pretendentes ao saber e procurou resolver as dificuldades filosóficas que levantavam. Ao mesmo tempo, tomou partes de seus pensamentos e as reformulou a partir da dialética e da teoria das ideias.

Os pré-socráticos propuseram teorias da natureza para explicar a origem, a constituição, a organização e o devir do mundo, sem recorrer à divindade. Para Platão, porém, essas teorias eram insuficientes. Ao fazer do mundo um conjunto de coisas sensíveis constituídas por elementos, não explicavam sua razão de ser nem resolviam certas contradições ontológicas e epistemológicas. A posição de Platão varia com a explicação examinada. No Fédon, Sócrates critica a tese de Anaxágoras sobre a organização do mundo porque ela não explica suficientemente as causas dessa organização. Platão aceita a tese de Heráclito sobre o devir, mas expõe seus limites. Ela produz discursos contraditórios sobre as coisas e não explica a regularidade observável nas próprias mudanças. Os filósofos da natureza colocaram diante do pensamento grego a dificuldade de pensar realidades sem estabilidade. Platão procura uma solução própria para explicar o fundamento inteligível[nota 37] dos fenômenos sensíveis e assegurar ao ser humano a possibilidade de conhecer de fato.

O pensamento grego enfrentava também dificuldades relativas à conduta humana, na moral e na filosofia política. Alguns sofistas defendiam o caráter convencional da lei, que dependeria da vontade humana e seria variável e relativa, sem outro fundamento efetivo além do direito do mais forte.[nota 38][nota 39] A justiça passaria a depender do ponto de vista, e a convivência se tornaria um conflito permanente, sem um valor capaz de assegurar a paz e a felicidade dos cidadãos. Platão procura uma solução para pôr fim ao relativismo moral, dar fundamento à política e estabelecer as condições da cidade justa. Na teoria do conhecimento, na moral e na política, os problemas dizem respeito à mudança e à instabilidade das realidades. Sua solução pode, então, tomar a forma de uma única hipótese ontológica[nota 40], a "teoria das Ideias", ou das "Formas inteligíveis".

As semelhanças e diferenças entre Platão e os historiadores gregos permitem compreender seu projeto filosófico na cultura grega. Assim como Heródoto e Tucídides, ele se interessa sobretudo pelos assuntos humanos e pela política, sob um ponto de vista filosófico e também sob um olhar que pode ser chamado de sociológico, como acontece na apresentação da origem das sociedades em A República.[p. 31] Não escreve, porém, como historiador, como se vê nas liberdades cronológicas e históricas de seus diálogos.[nota 41]

A diferença principal é filosófica. Platão busca aquilo que é sempre, enquanto Tucídides e Heródoto escrevem sobre realidades que sabem ser instáveis e destinadas à destruição. Os três procuram compreender o devir, mas seguem métodos diferentes para investigar o mundo sensível e usam outras causas explicativas. Embora a investigação histórica e a filosófica tenham sido distinguidas retrospectivamente, o mesmo amor pelo saber move esses três prosadores em sua pesquisa sobre o devir. No pensamento de Platão, porém, os dois historiadores não poderiam receber o título de filósofos, pois não se pode ter um saber estável sobre o que é instável por natureza. Isso também os impediria de ter competência política, que, para Platão, é a competência filosófica por excelência.[104]

Diálogos

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Fragmentos castanhos de papiro reunidos, com várias colunas de escrita grega e lacunas.
Um papiro do Fedro testemunha a circulação antiga dos diálogos. A forma dialogada permite apresentar argumentos, objeções e maneiras distintas de pensar.

Sócrates, um dos principais interlocutores dos diálogos, nunca escreveu. Platão não foi o único a colocá-lo nesse papel. Xenofonte fez o mesmo em sua Apologia de Sócrates, e Aristófanes o transformou no personagem central e parodiado da comédia As Nuvens. Com exceção da Apologia de Sócrates, a maioria dos escritos de Platão tem forma de diálogo.[105] Para Monique Dixsaut, um dos paradoxos do conjunto de textos platônicos está em sua própria existência.[106] Platão se distingue da maioria dos filósofos por rejeitar deliberadamente o tratado filosófico em prosa[nota 42] e escolher o diálogo. Na Academia, provavelmente ensinava oralmente, e chegou a dar uma conferência "Sobre o Bem", mas suas obras publicadas são diálogos de grande diversidade. Essa forma literária cria uma distância entre o autor e tudo o que é dito nos textos.[nota 43][107] Platão nunca abandona o diálogo e mantém até o fim a posição de quem apresenta argumentos sem tomar partido sobre eles ou suas premissas. Essa posição, porém, perde sentido nos últimos diálogos, como Sofista e Timeu.[108] A forma dialogada tem relação sobretudo com Sócrates e com a dialética, método de investigação filosófica por excelência para Platão. O verbo grego διαλέγομαι, dialégomai, de onde vem "diálogo", significa "conversar com alguém, discutir". A dialética é uma investigação em comum, por perguntas e respostas. Para Alexandre Koyré, Platão escreve diálogos porque deseja a participação do leitor, porque eles têm uma dimensão dramática e porque "a ciência verdadeira, a única digna desse nome, não se aprende nos livros nem é imposta de fora à alma. É em si mesma e por si mesma, por seu próprio trabalho interior, que a alma a alcança, descobre e inventa".[109] Para Dixsaut e Koyré, os diálogos platônicos se distinguem dos de outros filósofos porque "pensar não se reduz neles a enunciar teses. Os personagens de Platão encarnam uma atitude possível diante do que é pensar".[110] O diálogo é, antes de tudo, o da alma consigo mesma,[106] um "discurso que a alma faz a si própria", como diz Sócrates no Teeteto.[111]

Dialética

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Platão emprega diferentes métodos na condução do raciocínio dialético.[112] O método das consequências[nota 44] examina e põe à prova todas as consequências de uma hipótese.[113] O método da divisão[nota 45] separa o objeto que se pretende definir por meio da análise das espécies e das diferenças que contém.[114]

Retórica

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Busto de mármore de Demóstenes, de cabeça inclinada, com barba curta e expressão concentrada.
A oratória, representada pelo retrato de Demóstenes, tinha lugar importante na vida ateniense. Platão questiona a persuasão que produz crença sem conhecimento do assunto.

No Górgias, Sócrates distingue a persuasão que produz uma crença daquela que transmite conhecimento. Sua crítica se dirige à retórica capaz de convencer um público sem conhecer o assunto de que trata. Quando busca apenas agradar, ela se torna uma prática de adulação[nota 46], comparável à culinária em relação à medicina, pois oferece prazer sem cuidar do que é melhor para a alma.[115]

O Fedro examina as condições de uma retórica fundada no conhecimento. O orador precisa conhecer a verdade sobre seu tema, compreender os tipos de alma e adaptar o discurso a seus interlocutores. A reunião e a divisão dos conceitos[nota 47], procedimentos da dialética, permitem organizar o discurso; a persuasão passa a depender de uma investigação filosófica sobre o assunto e sobre quem o recebe.[115]

Mito como representação

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Ilustração de prisioneiros diante de sombras, de figuras junto a uma fogueira e de um homem que sai da caverna para a luz do sol.
A alegoria da caverna apresenta a passagem das sombras ao conhecimento e o retorno do filósofo aos demais prisioneiros. O mito torna visível um percurso de educação da alma.

Em Platão, Sócrates rejeita, como Xenófanes, os mitos que apresentam Zeus e os outros deuses como personagens imorais e devassos.[p. 32] Platão recorre ao mito repetidas vezes, como na alegoria da caverna.[nota 48] Ao falar do mundo, esse recurso responde a uma dificuldade. Se conhecer uma coisa exige conhecer sua causalidade, como conhecer o ato criador da causa?

O ato de conhecer deve corresponder a um ato criador que não pode ser concebido. Como falar, então, da origem do mundo? O ato criador não estaria além de todo discurso racional? Ainda assim, esse ato funda a possibilidade da racionalidade. Platão se pergunta como falar da origem do mundo sensível quando o conhecimento dialético, que articula as Formas inteligíveis, não pode operar nesse campo. Só é possível falar do mundo por um discurso que se assemelhe a ele, um mito verossímil[nota 49], próximo do sensível. Esse mito transpõe para o espaço e o tempo relações que o pensamento concebe, mas não consegue expor dialeticamente. Deve ser interpretado, sem ser confundido com a realidade. É preciso traduzir em relações entre ideias aquilo que o mito reuniu como fatos. A narrativa da organização do cosmo pelo demiurgo é um exemplo.[116]

Os mitos também transmitem sentimentos, valores e saberes compartilhados por uma comunidade, com uma dimensão ética e política. Platão os empregou para comunicar ideias que a maioria de seus contemporâneos, pouco voltada à busca da verdade, dificilmente aceitaria.[p. 33] A razão deve ter sempre o primeiro lugar, mas Platão sabe que o conhecimento está reservado a uma elite. O mito permite persuadir os cidadãos a seguir uma regra ou aceitar um valor. Os dois usos se sobrepõem em parte. O essencial é aproximar-se das Ideias ou avançar em direção à fonte de luz que é o Bem. "O mito exprime a obrigação da filosofia de avaliar seu projeto de explicação racional de todas as coisas diante daquilo que parece escapar à razão. Recorrer aos mitos não é renunciar, mas contornar uma dificuldade. Como a vida humana deve encontrar no conhecimento do mundo e do divino o princípio de sua perfeição, seu modelo, o mito dará aos homens uma representação verossímil desse modelo, sem a qual não poderiam viver adequadamente."[117]

Filosofia de Platão

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Para alguns filósofos gregos, o mundo é um fluxo perpétuo. O exemplo mais conhecido provavelmente é Heráclito, para quem o próprio ser é devir. Embora separe o ser do não-ser, Parmênides também toma como verdadeiro o caráter continuamente mutável do sensível, mas, ao contrário de Heráclito, não lhe atribui ser algum. Platão rejeita essas duas teorias contraditórias, pois nenhuma delas estabelece condições satisfatórias para o conhecimento. Platão também discute a utilidade do ensino dos sofistas e o relativismo de alguns de seus argumentos, procurando distinguir o que parece verdadeiro daquilo que pode ser conhecido.[118]

Realidade sensível e opinião

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Árvore na margem de um lago, com seu reflexo na água e montanhas ao fundo.
A distinção entre uma coisa e sua imagem é fundamental na análise platônica do conhecimento. Um reflexo na água exemplifica o tipo de imagem mencionado na analogia da linha.

As principais referências são Teeteto e Timeu.

Para Platão, conhecer é uma atividade da alma em contato com diferentes objetos,[119] entre os quais estão as coisas sensíveis que, reunidas, constituem o mundo. O ser vivo, definido como um corpo animado, dotado de alma, é afetado por esses objetos e pelos processos internos do organismo. Platão chama as impressões de pathḗmata[nota 50] e as entende como movimentos provocados no corpo pelos objetos exteriores ao sujeito que percebe. A alma não percebe todas as impressões, apenas as sensações, aísthēsis, que consistem em seus juízos[nota 51] sobre os objetos ao redor. Platão e Aristóteles rejeitam a existência do vazio, enquanto Epicuro o admite em sua física atomista.[120]

No Teeteto, Sócrates e Teeteto procuram definir a ciência e primeiro examinam se o conhecimento nasce desse contato da alma com o sensível. As duas primeiras definições examinadas são a ciência como sensação e a ciência como opinião verdadeira. A primeira enfrenta uma objeção.[nota 52] O mundo sensível é devir, um conjunto de objetos que nascem e se corrompem[nota 53], crescem e diminuem. Mundo sensível e devir são sinônimos. Se toda realidade é devir, ela se transforma sem cessar, e não se pode encontrar nela a estabilidade necessária a um conhecimento verdadeiro e certo. No sensível, um objeto tem ora uma qualidade, ora outra, ou as duas ao mesmo tempo, de modo que se encontram qualidades contraditórias na mesma realidade. A concepção heraclítica do mundo sensível inviabiliza o conhecimento ao afirmar que a natureza do real é contraditória. Ela também faz o conhecimento depender, como em Protágoras,[p. 34] dos estados empíricos do indivíduo, na fórmula "o homem é a medida de todas as coisas".[nota 54] Esse relativismo faz de cada indivíduo o critério do próprio ser das coisas, e não apenas de seu conhecimento, reduzindo o conhecer a um ponto de vista e eliminando qualquer possibilidade de verdade.

Como as impressões sensíveis não dão acesso ao verdadeiro, Platão pode refutar a tese de que a ciência é sensação. No Teeteto, a percepção é rejeitada como definição de conhecimento, e a opinião verdadeira também não basta para defini-lo. Isso não significa que seja impossível formar opiniões verdadeiras sobre o que percebemos. Ao refutar o conhecimento baseado no mundo sensível como devir, Platão opõe ao mobilismo heraclitiano[nota 55] e ao relativismo dos sofistas uma ciência que não se ocupa das impressões dos sentidos nem das opiniões da alma sobre elas. Seu objeto é uma realidade percebida apenas por uma capacidade intelectual e, por isso, chamada de realidade inteligível.[p. 35] Essa realidade e a capacidade da alma de conhecê-la precisam ser postuladas para manter a possibilidade de um conhecimento verdadeiro. Platão supõe que o fundamento do saber exige a equivalência entre ser e verdade, e que a alma precisa ter parentesco com as realidades inteligíveis para contemplá-las. Em diálogos como A República e Parmênides, a hipótese das Formas responde à questão de como alcançar um conhecimento estável; o Teeteto não a apresenta explicitamente como solução para sua pesquisa.[121]

As opiniões sobre a sensação podem ser reunidas em duas posições gerais. Para alguns, ela é produzida pelo semelhante, para outros, pelo contrário. Parmênides, Empédocles e Platão estão no primeiro grupo. Anaxágoras defende a segunda tese.[122] No livro VI de Causas das plantas, Teofrasto examina os sabores e discute a explicação de Demócrito; o Timeu trata dos sabores ao explicar a sensação do paladar.[123]

O Teeteto examina ainda uma terceira definição: conhecimento seria opinião verdadeira acompanhada de uma explicação, ou lógos. Sócrates considera diferentes sentidos dessa explicação, como expressar o pensamento em palavras, enumerar os elementos de uma coisa ou indicar aquilo que a distingue das demais. Nenhuma dessas tentativas resolve satisfatoriamente o problema, e o diálogo termina sem uma definição aceita.[nota 56] Sua associação posterior à fórmula da crença verdadeira justificada precisa levar em conta esse resultado aporético.[121]

Ideias ou Formas inteligíveis

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Pintura de um homem idoso e barbado, em roupa escura, segurando um livro.
A teoria das Formas procura aquilo que permanece estável em meio à mudança. Neste retrato de 1630, José de Ribera representa Platão com um livro.

Se conhecer é conhecer algo que é, apenas o que é de maneira absoluta, o que permanece sempre igual a si mesmo, pode ser de fato conhecido.[p. 36] O objeto do conhecimento verdadeiro não pode ser o mundo sensível, que nunca é igual a si mesmo e está sempre em transformação. Esse raciocínio tem duas consequências. Na epistemologia, só o que é pode ser objeto de conhecimento, e é apenas por meio dele que se conhece e se responde às perguntas de Sócrates com definições: o que é o Belo? O que é a coragem? A maioria dos interlocutores responde com exemplos da experiência, mas Sócrates insiste que nenhuma dessas coisas tem uma propriedade por si mesma. Para conhecer as propriedades, é preciso reunir o múltiplo na unidade de uma realidade não sensível,[nota 57] da qual cada coisa sensível recebe suas qualidades. Na ontologia, essas realidades devem ter existência objetiva[nota 58], distinta do mundo sensível, e ser a causa das qualidades das coisas. Ao perguntar o que é o Belo, Sócrates pergunta também por que as coisas belas são chamadas de belas. Elas o são apenas na medida em que participam de realidades não sensíveis, as únicas que podem ser definidas e conhecidas.

Platão chama de Forma ou Ideia, do grego ἰδέα, idéa, e εἶδος, eîdos, "aspecto", a hipótese dessas realidades inteligíveis. As Formas são os verdadeiros objetos da definição e do conhecimento. Cada Forma é considerada em sua identidade própria, independentemente dos objetos sensíveis que dela participam. A definição de cada Forma e suas relações com outras Formas são questões debatidas pelos intérpretes; os diálogos não reduzem todas as definições a uma tautologia.[124] Do fracasso da ideia de conhecimento sensível e das exigências do conhecer, Platão deduz suas propriedades. As Formas são realidades imateriais e imutáveis,[nota 59] eternamente idênticas a si mesmas, universais e inteligíveis, as únicas que verdadeiramente são e que independem do pensamento.[nota 60] Enquanto a realidade das coisas sensíveis muda, as Formas são a única realidade verdadeira. Platão as qualifica como "realidade verdadeira" ou emprega comparativos, como "o que há de mais real", para distingui-las da realidade sensível, que só é real por sua relação com a realidade autêntica. Símias diz a Sócrates: "Pois não vejo nada mais claro do que isto, que o belo, o bem e todas as outras coisas da mesma natureza de que falavas há pouco existem da maneira mais real possível."[125] Se as coisas sensíveis têm alguma realidade, devem recebê-la dessas Formas: "Mas, se alguém me disser que uma coisa é bela por sua cor brilhante, por sua forma ou por qualquer outra coisa desse gênero, deixo de lado todas essas razões, que apenas me confundem, e me atenho simplesmente, de boa-fé e talvez ingenuamente, a isto, que nada a torna bela além da presença ou da comunicação da beleza em si, ou de qualquer outra maneira pela qual essa beleza se acrescente a ela."[126]

Pela mesma razão, as Formas são imutáveis, estáveis e eternas. São também universais, pois suas qualidades introduzem semelhanças entre as coisas sensíveis. Uma mesma qualidade está presente em coisas determinadas por uma mesma Forma, que se aproxima, assim, de uma classe. As Formas independem do pensamento porque, sendo objetos do saber, precisam existir fora de nós. Caso contrário, seriam subjetivas, relativas a um sujeito e variáveis com suas afecções sensíveis, tornando-se particulares e dependentes de nossas opiniões. Essa teoria das Ideias, ou das Formas inteligíveis, constitui o essencial do platonismo e pode ser reunida em duas noções. A Forma é o ser inteligível, e a Participação é a relação desse ser com o devir sensível, pela qual o último é determinado e pode ser conhecido. Ainda em vida de Platão, a teoria recebeu objeções, encontradas também na Metafísica de Aristóteles. O próprio Platão apresentou objeções no Parmênides, sem questionar a existência das Formas, que julgava condições necessárias do discurso e da conduta humana. As objeções dizem respeito sobretudo à impossibilidade de uma Forma estar em realidades sensíveis diferentes sem perder sua unidade ou identidade, e à dificuldade de lhe atribuir poder causal[nota 61]. Esse poder contrariaria sua imutabilidade e a colocaria em contato com o sensível, fazendo-a perder sua superioridade ontológica. Platão tenta responder a essas objeções reformulando a relação das Formas com as realidades sensíveis e introduzindo a atividade do demiurgo, apresentada no Timeu por meio de uma narrativa mítica da organização do universo.

Para Jean-François Pradeau, a expressão "mundo das Ideias" pode sugerir indevidamente dois mundos separados; Platão fala de um "lugar sensível" e de um "lugar inteligível" ao examinar diferentes modos de acesso à realidade.[127] No Timeu, há um só cosmo visível, organizado segundo um modelo inteligível.[p. 37]

Graus de conhecimento

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Linha vertical dividida em quatro níveis, com reflexos, objetos, figuras matemáticas e Formas; as legendas do diagrama estão em francês.
Na analogia da linha dividida, a conjectura e a crença se referem ao sensível; o pensamento e o intelecto, ao inteligível. O esquema dispõe esses quatro graus do conhecimento, da base ao topo.

À separação ontológica entre sensível e inteligível corresponde uma hierarquia epistemológica igualmente estrita. A opinião se ocupa do mundo sensível, enquanto a ciência conhece as realidades inteligíveis. Platão apresenta essa divisão por meio da analogia da linha dividida: "Toma uma linha dividida em dois segmentos desiguais, um para o gênero visível, outro para o inteligível, e divide novamente cada segmento na mesma proporção. Ao ordenar as divisões por seu grau relativo de clareza ou obscuridade, terás no mundo visível um primeiro segmento, o das imagens. Chamo de imagens primeiro as sombras, depois os reflexos na água ou na superfície dos corpos opacos, polidos e brilhantes, e todas as representações semelhantes. [...] Considera agora que o segundo segmento corresponde aos objetos que essas imagens apresentam, os animais ao nosso redor, as plantas e todos os produtos da arte. [...] Examina agora como dividir o mundo inteligível. [...] Para alcançar uma de suas partes, a alma deve usar como imagens os originais do mundo visível, procedendo de hipóteses para uma conclusão, sem chegar a um princípio. Para alcançar a outra, que chega a um princípio não hipotético, deve partir de uma hipótese e, sem as imagens usadas no primeiro caso, conduzir a pesquisa apenas com as ideias tomadas em si mesmas."[128]

A linha tem um sentido ontológico e epistemológico. A alma, em contato com uma realidade, é afetada de acordo com a natureza dessa realidade. Há tantas maneiras de ser afetada quanto modos de ser, e elas definem maneiras de falar de um objeto ou pensá-lo. A conjectura, εἰκασία, eikasía[nota 62], se ocupa das imagens e das ilusões. A crença, πίστις, pístis[nota 63], se ocupa dos seres vivos e dos objetos fabricados. O pensamento, διάνοια, diánoia[nota 64], se ocupa das noções e dos números. O intelecto, νόησις, nóēsis[nota 65], se ocupa das Formas. A ignorância não integra os quatro segmentos da linha; a relação entre conhecimento, opinião e ignorância também é tratada em outra passagem de A República.[p. 38]

As coisas sensíveis são objeto da conjectura e da crença, dois modos de conhecimento que Platão chama de opinião, dóxa. A opinião é um juízo sobre sensações.[nota 66] Como seu objeto é instável, ela não encontra em si mesma o critério de sua verdade ou falsidade. As realidades inteligíveis são objeto do pensamento e do intelecto, que Platão chama de ciência. O pensamento corresponde aos raciocínios discursivos[nota 67] baseados em hipóteses e abrange as ciências particulares, como a matemática. O intelecto é uma intuição incondicional do que é. Essa intuição é a ciência por excelência, chamada por Platão de dialética, a ciência das Formas e de suas relações. A esse grau mais alto, propriamente o único conhecimento verdadeiro, corresponde a atividade por excelência da alma, a atividade do intelecto.

A analogia da linha responde às perguntas sobre o que se conhece e os tipos de conhecimento que correspondem às realidades conhecidas. Resta saber quais métodos correspondem a eles e quais capacidades da alma tornam possível o conhecimento. Os diálogos apresentam meios para adquirir saber ou avançar na iniciação filosófica, sobretudo a reminiscência, a refutação e a dialética, que é a própria filosofia. Platão também emprega a dialética, o mito e o paradigma para expor seu pensamento.

Desenho de um cocheiro guiando um carro puxado por dois cavalos alados, um claro e outro escuro.
No Fedro, o carro alado representa a alma: o cocheiro corresponde à razão, e os dois cavalos, às forças que ela deve governar. A imagem expressa a necessidade de ordenar os impulsos.

A palavra "alma", em grego ψυχή, psykhḗ, é de longe a mais frequente nos diálogos de Platão, sobretudo em Fedro, A República e Fédon. Nos raros diálogos em que ela não é usada, há sempre um ou mais discursos que fazem alusão a ela. Apesar dessa presença constante, Platão nunca deu uma definição completa da alma. Em vez disso, apresenta concepções diferentes, cada uma voltada a determinada qualidade ou propriedade. Embora não se possa fornecer uma definição precisa, é possível classificar essas concepções. Algumas propriedades parecem mais fundamentais, como a alma entendida como princípio do movimento e do pensamento.[nota 68][p. 39][p. 40][129]

Para Platão, a alma tem parentesco com as Ideias e com o divino e possui movimento próprio. É imortal e tem três capacidades. A epithymía[nota 69], ἐπιθυμία, é o "apetite", o elemento concupiscível ou desejante, sede dos desejos, como a fome e a sexualidade, e das paixões. O thymós[nota 70], θυμός, é a "ira", o elemento irascível ou agressivo, que também pode ser traduzido como "coração", a parte da alma capaz de ímpeto, raiva e coragem. O logistikón[nota 71], λογιστικόν, é o "racional", ou espírito, elemento racional, imortal e divino, um "dáimon".[130]

Platão apresenta essa constituição tripartida em Fedro e em A República. O noûs, ou razão, é o mais nobre dos três elementos, pois só ele tem relação com o inteligível. O segundo, próprio do desejo de enriquecimento, boa reputação e feitos que os acompanham, só é útil quando está a serviço do elemento racional para dominar o terceiro, que leva inevitavelmente ao vício. A vida boa exige uma hierarquia entre essas partes, na qual o noûs governa o thymós, que governa a epithymía. Cada parte tem sua virtude própria,[nota 72] a sabedoria para o espírito, a coragem para o elemento agressivo e a temperança para o desejante. A harmonia entre as três é a virtude da justiça. O pensamento de Platão mudou ao longo dos diálogos. No Fédon, admite uma alma.[131] Em A República, por volta de 370 a.C., admite três partes.[132] No Fedro, compara a alma a uma parelha alada[nota 73], na qual o cocheiro é a razão, o espírito ou a inteligência, noûs, o cavalo obediente é a vontade, o coração ou a parte irascível, thymós, e o cavalo rebelde é o desejo, o "baixo-ventre", epithymía.[133] No Timeu, distingue no ser humano a parte racional imortal e as partes mortais irascível e desejante, situadas em regiões diferentes do corpo.[p. 41] Para Diógenes Laércio, essa divisão remonta a Pitágoras.[p. 42] Platão acreditava na imortalidade da alma e procurou prová-la, sem afirmar que poderia consegui-lo, no Fédon, que narra os últimos momentos de Sócrates. Essa imortalidade está ligada à migração das almas[nota 74] e à sua purificação depois da morte, apresentadas em três mitos no final do Górgias, de A República e do Fédon. Em A República, a passagem que enumera deuses, dáimons, heróis, o mundo dos mortos e os seres humanos trata dos assuntos dos relatos poéticos, não de cinco espécies de alma.[p. 43]

A distinção entre alma e corpo é fundamental em vários diálogos, mas sua relação também é examinada de modos diferentes conforme o contexto. No Timeu, por exemplo, a reflexão se ocupa da união entre ambos e de seus efeitos recíprocos.[134] A alma existia antes de encarnar na Terra e continuará a existir depois da morte. Vem da esfera do noûs, do divino e do racional, e assume uma forma corpórea em cada encarnação, na qual fica presa no corpo, sôma, "semelhante a uma doença" ou a um "túmulo", sêma[nota 75]. A existência terrena tem como objetivo o retorno da alma ao estado original pela anamnese, sua capacidade de buscar e reencontrar as Ideias cujo conhecimento guardou de maneira virtual[nota 76].

Argumentos pela imortalidade

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No Fédon, a defesa da imortalidade é desenvolvida em uma sequência de argumentos, intercalados com objeções de Símias e Cebes. Os quatro argumentos geralmente distinguidos são os seguintes:[p. 44]

Argumentos do Fédon sobre a imortalidade da alma
ArgumentoPassagemLinha de raciocínio
Ciclo dos contrários70c–72eAssim como a morte procede da vida, a vida deve proceder da morte, o que pressupõe a existência das almas dos mortos.
Reminiscência72e–77aO reconhecimento de realidades como a igualdade em si pressupõe um conhecimento anterior ao nascimento.
Afinidade78b–84bA alma se aproxima do invisível, inteligível e estável, enquanto o corpo se aproxima do visível e sujeito à dissolução.
Argumento final95a–107bA alma é aquilo que traz vida ao corpo e não admite o contrário da vida, a morte.

As objeções integram a própria investigação. Símias compara a alma à harmonia de um instrumento, que desapareceria quando ele fosse destruído; Cebes considera que a alma poderia sobreviver a vários corpos sem ser indestrutível. Sócrates retoma o problema da causalidade e das Formas ao responder a essas dificuldades.[p. 44]

Amor pelo conhecimento

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Figura alada de Eros, pintada em vermelho sobre o fundo negro de uma peça circular.
O desejo, representado por Eros, pode orientar a alma da atração por um corpo à busca do Belo e do conhecimento. A figura aparece em uma peça ática de cerca de 470–450 a.C., conservada no Louvre.

A filosofia de Platão exige compreender o desejo intenso e multiforme que toma a alma e o corpo, o amor, em grego ἔρως, érōs[nota 77].[135] O amor é uma forma de possessão e delírio divinos[nota 78],[p. 45] que se manifesta no apego a uma pessoa, a um objeto ou a uma ideia, acompanhado da expectativa de que satisfazer esse desejo possa transformar e elevar a existência. Vai do acasalamento ou da devassidão ao amor do aluno pelo mestre e à excitação frenética da alma que busca uma ideia, como o Bem.[p. 46] Para Platão, não há diferentes naturezas do desejo erótico que se manifestariam em formas de amor com apenas o nome em comum. Ele distingue e hierarquiza o amor por suas finalidades, mas os fins diferentes do desejo pertencem a um mesmo gênero. Condena o amor carnal ou bestial e coloca no grau mais alto o delírio da alma que toma o filósofo em busca do saber. A diferença entre essas orientações está na capacidade de contemplar o Belo, e não na natureza do desejo. As finalidades do amor se distinguem ao entrar em contato com a beleza:

Apenas a beleza tem o privilégio de ser o objeto mais visível e mais atraente. O homem cuja iniciação não é recente ou que se deixou corromper não se eleva prontamente da beleza daqui à beleza perfeita ao contemplar na Terra a imagem que leva seu nome. Longe de sentir respeito por ela, cede ao prazer como os animais, procura cobrir essa imagem e semear-lhe filhos. No frenesi de suas relações, não teme nem se envergonha de buscar uma volúpia contra a natureza. Mas o homem recém-iniciado, ou que muito contemplou no céu, ao perceber em um rosto uma bela imagem da beleza divina ou em um corpo alguma ideia dessa mesma beleza, primeiro estremece e sente voltarem algumas de suas perturbações passadas. Depois, ao considerar o objeto que comove seu olhar, venera-o como um deus.
Fedro, 250–251.

Essa busca da Beleza levanta questões examinadas ao longo dos diálogos,[136] nos quais a alma dirige todo o seu desejo para um "lá". Elas dizem respeito ao mundo sensível como imagem de modelos inteligíveis, como na teoria das formas, ao acesso intelectual a esses modelos[nota 79] e à sua natureza. Além das questões epistemológicas, está em jogo o destino da alma, primeira e mesmo única preocupação do filósofo. Sua natureza e suas virtudes precisam ser investigadas. Essa pesquisa alcança a ética, entendida como a excelência da alma, a política, como sua educação, e a cosmologia, como seu lugar e estrutura no todo ordenado. Esses campos exigem explicação e fundamento que podem ser chamados de ontológicos.

Reminiscência

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Animação que parte de um quadrado amarelo e constrói um quadrado azul sobre sua diagonal, com o dobro da área.
No Mênon, Sócrates conduz um escravo, por perguntas, ao problema de construir um quadrado de área dupla. A animação mostra a solução pela diagonal, usada no diálogo para discutir a reminiscência.[p. 47]

Para Platão, o conhecimento sensível é menos verdadeiro, pois a alma não chega ao ser pelas sensações. Uma capacidade da alma precisa estar em contato com as realidades verdadeiras para produzir ciência autêntica, o que também exige que a alma participe de alguma maneira do inteligível. Essa relação é apresentada pela reminiscência e pelos mitos que a acompanham. A reminiscência, em grego ἀνάμνησις, anámnēsis, também traduzida como rememoração, é a lembrança, despertada por uma percepção sensível, de conhecimentos adquiridos pela alma fora de sua permanência em um corpo e perdidos quando voltou a encarnar. A aquisição do conhecimento deve começar por um reconhecimento, seguido da prova da refutação.[nota 80] Essa tese pressupõe a imortalidade da alma e a existência de realidades inteligíveis, pois foi em um mundo inteligível, superior ao empírico, que a alma contemplou as realidades divinas. Um dos exemplos mais conhecidos está no Ménon:

Assim, imortal e renascida muitas vezes, a alma viu tudo, tanto aqui quanto no Hades, e nada há que não tenha aprendido. Não é surpreendente que, sobre a virtude e sobre o restante, seja capaz de se lembrar do que soube anteriormente.
Ménon, 81b.

Linguagem e discurso

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Figura pintada em um vaso grego, sentada diante de um aluno e escrevendo numa tabuinha com um estilete.
A escrita fixa nomes e enunciados, mas a relação entre as palavras e as coisas exige investigação. Uma cena escolar de Dúris mostra o uso de uma tabuinha de escrita.

O Crátilo investiga a relação entre os nomes e as coisas. Hermógenes sustenta que os nomes dependem de convenção, enquanto Crátilo defende uma correção natural dos nomes[nota 81]. Sócrates examina essas posições por meio de analogias, etimologias e da comparação dos nomes com imagens de seus objetos. A investigação termina por questionar se os nomes podem oferecer um caminho suficiente para conhecer as coisas: a busca da verdade exige examinar as próprias realidades, em vez de confiar apenas nas palavras.[137]

No Sofista, a análise do discurso distingue nomes e verbos. Uma sequência apenas de nomes ou apenas de verbos não forma uma afirmação: é preciso combinar a referência a algo com uma ação ou propriedade atribuída a esse sujeito. Assim, um discurso falso não fala simplesmente de um nada absoluto; diz de um sujeito algo diferente do que ele é. Os exemplos "Teeteto está sentado" e "Teeteto está voando" mostram como a estrutura do enunciado permite distinguir verdade e falsidade.[98]

Arte e poesia

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Pintura com duas máscaras teatrais, uma de rosto barbado e outra de rosto jovem, sobre um fundo vermelho.
Máscaras teatrais em uma pintura romana remetem à representação de personagens e emoções. Platão examina a imitação artística e os efeitos da poesia sobre a alma.

A crítica à poesia em A República considera tanto o afastamento em relação à verdade quanto os efeitos da representação sobre a alma. Ao acompanhar personagens dominados pela dor, pela ira ou pelo desejo, o público pode fortalecer emoções que a educação procura submeter à razão. Por isso, Sócrates restringe a poesia admitida na cidade ideal, mas conserva hinos aos deuses e elogios aos homens bons, e deixa aberta a possibilidade de uma defesa da poesia que demonstre seu benefício.[138]

O Íon trata da inspiração do poeta e do rapsodo[nota 82] por meio da imagem de uma pedra magnética que transmite sua força a uma cadeia de anéis. A Musa inspira o poeta, que move o intérprete e, por intermédio dele, o público.[nota 83] Essa inspiração explica a força da poesia, mas não equivale a um conhecimento técnico sobre os assuntos narrados. A tensão entre inspiração, prazer e conhecimento impede reduzir a discussão platônica a uma única condenação de todas as artes.[138]

Teologia e religião

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Cabeça de mármore de Zeus, com cabelos volumosos e barba longa.
Os deuses da tradição grega, como Zeus, fazem parte do horizonte religioso dos diálogos. Nas Leis, Platão relaciona o divino à justiça e à ordem dos movimentos celestes.

No livro X das Leis, o Ateniense[nota 84] examina três posições que considera ímpias: negar a existência dos deuses, admitir que existem mas não cuidam dos seres humanos, ou acreditar que podem ser desviados da justiça por preces e sacrifícios. Sua resposta relaciona a divindade à ordem do universo. O argumento contra o ateísmo parte da prioridade do movimento que move a si mesmo, identificado com a alma, e apresenta as almas que governam os movimentos celestes ordenados como divinas.[139]

Cosmologia de Platão

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A principal referência é o Timeu, diálogo ao qual os médio-platônicos atribuíam o primeiro lugar. Para os neoplatônicos, esse lugar cabia ao Parmênides.[140]

Apresentação do Timeu

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Página com texto grego manuscrito, título destacado e comentários em torno da coluna principal.
A abertura do Timeu em um manuscrito grego conserva o diálogo que articula cosmologia, matemática e explicação mítica. Seu projeto abrange a origem do universo, do ser humano e da sociedade.

Luc Brisson situa Timeu e Crítias entre 358 e 356 a.C., depois de Teeteto, Parmênides, Sofista e Político, e antes de Filebo e Leis.[141] A data e a posição do Timeu entre os diálogos permanecem discutidas.[142] Platão planejava uma trilogia[nota 85] com Timeu, Crítias e Hermócrates, que não chegou a escrever, para apresentar a origem do universo, do ser humano e da sociedade.[143] Para Luc Brisson, o projeto retoma uma tradição antiga da qual o poeta Hesíodo faz parte. O Timeu recorre ao mito, "um discurso que se desenvolve no tempo e apresenta o que fazem não entidades abstratas, mas personagens com uma individualidade mais ou menos definida".[144] Platão também procura uma demonstração "científica",[nota 86] o que cria uma contradição apontada por Brisson e outros críticos, como Aristóteles. O Timeu traz três novidades, a busca de uma explicação científica que vá além dos dados puramente sensíveis, o uso de axiomas[nota 87] a priori e a matemática como instrumento para "expressar algumas das consequências dos axiomas que estabeleceu".[145]

Formas inteligíveis, demiurgo, matéria e necessidade

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Formas inteligíveis

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Para Platão, uma Forma inteligível é "uma entidade não sensível", eterna, pura e não composta, "que mantém com as realidades particulares [...] uma relação de modelo com imagem".[146]

Ao examinar esse mundo puro e não composto, Northrop Frye observa que Platão, no Timeu, apresenta uma visão do que estaria errado no mundo das artes. Para Frye, Platão via esse mundo como cheio de imitações da natureza, o que dava à arte um sentido depreciativo. Os artifícios e as imitações nas produções humanas seriam fracassos diante da ideia de um mundo melhor a construir.[147] Frye também lembra que Platão apresenta uma narrativa na qual o ser humano herda os erros dos homens que deram origem à sua espécie. O herdeiro não pode agir sobre esses erros nem contra eles, pois fazem parte de seu passado e pesam sobre ele.[148]

Busto de mármore de Aristóteles, com barba curta e manto de pedra colorida.
Aristóteles criticou a explicação do cosmo como obra de um artesão. Para ele, a produção natural não exige a deliberação atribuída por Platão ao demiurgo.

O demiurgo não é ciumento como os deuses gregos tradicionais. É fundamentalmente bom, qualidade ligada, em Platão, à racionalidade. É um intelecto, noûs, que reflete,[nota 88] logízesthai,[149] "leva em consideração",[150] "prevê",[151][152] fala e age por vontade própria. Diferentemente daquilo que se encontra em Hesíodo, o demiurgo não gera. Em Timeu, 28c, é "pai e fabricante" do universo.[153] É oleiro ao criar o esqueleto humano, modelador de cera ao cobri-lo de carne, agricultor ao semear as almas e metalúrgico ao fabricar o universo. Platão fala do demiurgo ora no singular, ora no plural, o que leva Brisson a perguntar se ele é sobretudo "a função produtora do universo tomada ora em sua generalidade, ora em um de seus aspectos".[153] Para Brisson, a atividade do demiurgo se aproxima da do artesão por pelo menos três razões. Tem começo e fim, molda materiais a partir de uma Forma inteligível e "obedece a uma intenção, a uma finalidade". Depois de criar o mundo, o demiurgo se retira. "A alma do mundo assume a tarefa, garantindo a manutenção de uma ordem sobretudo matemática ao longo de uma mudança incessante."[154] O Timeu seria, assim, "a única cosmologia de tipo artificialista na Antiguidade"[nota 89].[155] Aristóteles critica esse artificialismo. Para ele, "a natureza, que explica a produção do cosmo",[156] não delibera como um artesão.[157] Plotino, os neoplatônicos e o estoicismo seguiram Aristóteles nesse ponto.[155]

Matéria e Necessidade

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Placa pintada com um artesão segurando uma ferramenta diante de uma estrutura de oficina.
A atividade de um oleiro envolve trabalhar uma matéria que precisa receber forma. No Timeu, a ação do demiurgo é explicada pela comparação com o trabalho do artesão, limitado pela necessidade.

Para conhecer o mundo, Platão exige Formas inteligíveis imutáveis e universais, coisas sensíveis que sejam imagens dessas Formas e uma matéria, a khṓra, que explique a diferença entre Forma e imagem.[nota 90] A matéria tem movimento e agitação próprios[158] e está sempre ligado à Necessidade, anánkē, uma sequência de movimentos.[nota 91] Esse movimento é "desprovido de ordem e medida",[159] e o demiurgo precisa organizar a matéria "persuadindo a necessidade, na medida do possível, a permitir a produção do belo e do melhor".[160] A necessidade continua a agir depois de o demiurgo terminar sua tarefa e de a alma do mundo dar prosseguimento a ela. Leva a contradições denunciadas por Aristóteles, que fizeram os médio-platônicos ler o Timeu como um drama.[160]

Fabricação do mundo

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Platão concebe o mundo como um ser vivo, com alma e corpo.[160]

Alma do mundo

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Animação de círculos concêntricos que recebem cores e números, de 1 a 27, ao redor de uma esfera central.
O Timeu apresenta a alma do mundo por meio de círculos e proporções numéricas. A animação representa a sequência 1, 2, 3, 4, 8, 9 e 27, ligada à organização matemática do cosmo.[p. 48]

O demiurgo começa por criar a alma do mundo a partir de três noções fundamentais, o Ser, o Mesmo e o Outro.[nota 92] Ela é intermediária entre o sensível e o inteligível, entre o indivisível próprio do inteligível e o divisível próprio do mundo sensível.[161] Sua estrutura matemática é composta de círculos, e ela é "o princípio de todas as mudanças ordenadas em todo o universo".[162] Platão está convencido de que há regularidade no mundo supralunar e no sublunar[nota 93]. No último, porém, o demiurgo e a alma do mundo não conseguem vencer inteiramente a necessidade que vem da matéria.[163]

Corpo do mundo

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No relato do Timeu, o demiurgo organiza o corpo do mundo a partir dos quatro elementos, dando-lhe forma e proporção; não cria esses elementos do nada.[nota 94][p. 49][164] Para Platão, como para os gregos desde Empédocles, o mundo é composto de quatro elementos, fogo, ar, água e terra. Sua particularidade está na tentativa de explicar matematicamente por que há apenas quatro elementos e na correspondência entre eles e quatro poliedros regulares,[nota 95] o tetraedro, o hexaedro, o octaedro e o icosaedro.[165] Para Platão, "no mundo sensível, todos os fenômenos observáveis, ou seja, tudo o que muda na terminologia platônica, se reduzem a interações entre os mesmos componentes elementares, que podem ser expressas em relações matemáticas".[165]

Poliedros
TetraedroHexaedroOctaedroDodecaedroIcosaedro
Tetraedro em rotação, com suas faces e arestas visíveis.
Cubo em rotação, com suas faces e arestas visíveis.
Octaedro em rotação, com suas faces e arestas visíveis.
Dodecaedro em rotação, com suas faces e arestas visíveis.
Icosaedro em rotação, com suas faces e arestas visíveis.
FogoTerraArUniverso como um todoÁgua

O quinto sólido, o dodecaedro, é utilizado no Timeu para a representação do universo como um todo.[p. 50]

O mundo tem quatro espécies de seres vivos, os deuses, relacionados ao fogo, as aves, ao ar, os animais terrestres, à terra, e os aquáticos, à água. Há também os vegetais, que alimentam os seres humanos e estão ligados à parte apetitiva da alma.[162]

Os cinco poliedros, mais tarde chamados de sólidos platônicos, também aparecem na tradição matemática associada à Academia e nos Elementos de Euclides.[166]

Fabricação do ser humano

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Platão concebe a vida humana como a união da alma com o corpo, cujo ponto de contato privilegiado é a "medula".[nota 96][167]

Alma humana

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Pintura de Aquiles de armadura confrontando um homem de manto vermelho, ao lado de duas mulheres.
A ira de Aquiles permite visualizar o impulso combativo associado ao thymós, que deve ser ordenado pela razão. O termo noûs aparece pela primeira vez na Ilíada.

A parte imortal das almas dos deuses, dos dáimons e dos seres humanos é fabricada pelo demiurgo a partir da mistura usada para a alma do mundo. As almas humanas têm as mesmas características matemáticas e funções da alma do mundo, mas são menos puras e mais imperfeitas. O demiurgo fabrica a parte imortal. Seus auxiliares fabricam a parte mortal, dividida em "uma parte irascível, thymós, o 'coração', e uma parte desejante, epithymía, o 'apetite'". A parte irascível busca estima e vitória na competição. A desejante diz respeito à alimentação e ao sexo e é a que Platão menos aprecia. No livro IV de A República e no Fedro,[168] Platão compara a alma a uma parelha de dois cavalos, como foi apresentado na seção sobre a alma.

Corpo humano

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Diagrama de um triângulo retângulo com vértices A, B e C e uma altura traçada até a hipotenusa.
No Timeu, a constituição dos ossos e da carne é explicada a partir de triângulos retângulos. A geometria integra, assim, o modelo pelo qual Platão descreve o corpo.

O corpo é formado por triângulos retângulos[nota 97] que dão origem aos ossos e à carne. A medula é composta de triângulos capazes de produzir fogo, água e ar. Para produzir os ossos, acrescenta-se terra pura à mistura. A pele resulta de uma "mistura de água, fogo e terra, à qual se acrescenta um fermento formado por sal e ácido".[169] Para Platão, o ser humano tem boa saúde quando respeita a ordem do mundo.[170] Os corpos são fabricados por deuses jovens, sob as instruções do demiurgo,[nota 98] que encerram neles a parte racional da alma, o noûs.

União da alma com o corpo

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Relevo de pedra com uma perna e um pé esculpidos abaixo de uma inscrição dedicada a Asclépio e Hígia.
O cuidado do corpo fazia parte da vida grega, como mostra esta oferenda pela cura de uma perna. Platão relaciona os estados da alma ao funcionamento corporal e à educação.

A vida humana é a união da alma com o corpo, com a medula como ponto de contato privilegiado.[167] A parte racional da alma deve dominar o caos da matéria que prevalece no nascimento e na infância. A cooperação entre essa parte e o corpo acontece pelas sensações. Os sentidos, como a visão, o olfato e a audição, captam sinais externos e os comunicam à alma, onde se tornam sensações.[171] As doenças da alma vêm do mau funcionamento do corpo ou de uma educação inadequada.[172]

Viver também desgasta o corpo. Para Platão, a vida alterna dois tipos de movimento, a repleção e a depleção[nota 99].[173] Para continuar vivo, é preciso equilibrar constantemente ganhos e perdas. Quando há mais saídas que entradas, instala-se a corrupção.[174] A velhice é a multiplicação das aberturas, ou dos espaços entre os triângulos que compõem a medula, causada pelo ambiente hostil que agride o ser humano desde o nascimento.

Cidade e virtude: filosofia política

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Platão examina a política em A República, Político e Leis. Para Monique Dixsaut, a primeira obra "se volta a uma reforma da cultura e traça o plano de uma constituição-modelo", enquanto as Leis "se destinam a fundar uma cidade de segundo nível, cuja legislação e instituições determinam".[175] O Político examina a ciência necessária ao bom governante.[175]

Origem e desenvolvimento da cidade

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Vista da ágora de Atenas, com vestígios de construções, árvores e o longo pórtico reconstruído da Estoa de Átalo ao fundo.
A Ágora de Atenas reunia atividades da vida urbana. Em A República, a origem da cidade é explicada pela associação entre pessoas que precisam cooperar e dividir o trabalho.

Na abertura das Leis, Clínias afirma que os seres humanos podem ser inimigos uns dos outros e até de si mesmos. Essa fala integra uma discussão sobre a guerra e a concórdia; não é uma definição dada por Platão do ser humano em oposição à expressão posterior de Aristóteles, "animal político"[nota 100], ζῷον πολιτικόν, zôion politikón.[176] A política precisa criar a unidade, sobretudo por meio da virtude e da educação.[177]

No livro II de A República, Sócrates atribui a origem da cidade à necessidade humana de cooperar na produção e de dividir as tarefas.[178] Para Alexandre Koyré, a solidariedade está na origem do contrato social, e não o medo defendido por Glauco, antecipando Hobbes.[179] Quando a cidade cresce, entra em conflito com seus vizinhos e surge uma nova classe, a dos guerreiros.[179] Para Platão, o guerreiro deve defender e proteger a cidade, como o guardião[nota 101] de A República.[180]

O guardião ocupa o centro da cidade platônica ideal e é a principal preocupação dos dez livros de A República.[181] Os guardiões são escolhidos entre os melhores em capacidade intelectual, moral e física, independentemente do sexo. Sua educação recebe especial cuidado, pois Platão critica Atenas por não dar aos melhores "uma educação regulada e controlada", como a dos espartanos.[182] A cidade ideal de A República proíbe as fábulas e os livros capazes de enganar.[183] Para Dixsaut, a crítica de Platão à poesia pode "parecer a prova irrefutável de seu 'totalitarismo'", mas também pode ser explicada pela ideia de que a poesia, agindo diretamente sobre a alma, neutraliza a inteligência.[184]

Educação e formação dos governantes

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Nos livros VI e VII de A República, a formação dos futuros governantes combina a educação do caráter, o estudo das matemáticas, a dialética e a experiência política. A educação inicial por meio da música e da ginástica prepara a alma e o corpo; o estudo da aritmética, da geometria, da astronomia e da harmonia deve conduzir o pensamento além das percepções imediatas. Só os que passam por sucessivas seleções chegam à formação filosófica superior.[p. 51]

Formação dos governantes na cidade ideal de A República
EtapaFormação ou atividade
Infância e juventudeMúsica, narrativas selecionadas, ginástica e formação do caráter.
Dos 20 aos 30 anosEstudo articulado das disciplinas matemáticas e de suas relações.
Dos 30 aos 35 anosFormação intensiva em dialética, reservada aos candidatos selecionados.
Dos 35 aos 50 anosExercício de funções militares e políticas, com experiência prática e novas provas de caráter.
A partir dos 50 anosContemplação do Bem e alternância entre atividade filosófica, governo da cidade e formação dos sucessores.

Esse percurso corresponde ao programa da cidade ideal descrita no diálogo. O retorno dos filósofos à vida política retoma o movimento de volta à caverna: quem alcançou o conhecimento deve assumir responsabilidades na comunidade. Para o ensino das crianças, Sócrates recomenda o aprendizado por meio de brincadeiras, em lugar da imposição, de modo a reconhecer melhor suas disposições.[p. 51]

Melhor maneira de governar a convivência

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Boneca de terracota com tronco e cabeça fixos e braços e pernas presos por articulações.
A metáfora das marionetes nas Leis apresenta afetos que puxam o ser humano em direções diferentes. Esta boneca grega tem membros articulados, oferecendo uma referência concreta para a comparação.

No livro I das Leis,[p. 52] Platão explica sua concepção política com o mito das marionetes, no qual o ser humano é uma marionete fabricada pelos deuses. Nos seres vivos, os fios que a manipulam ficam dentro do corpo e correspondem aos afetos, o prazer, a dor, o medo e o raciocínio, que puxam os seres humanos em direções contrárias. O raciocínio é o mais fraco. O mito retoma outras narrativas nas quais a alma é composta de partes que não estão espontaneamente em harmonia. A marionete é uma realidade viva que não é guiada pela razão por natureza, o que justifica a função da política. A alma precisa de educação para realizar seu bem, e essa educação passa pelas leis, entendidas como um discurso racional da cidade aos cidadãos.

Essa concepção do ser humano explica por que a busca da melhor constituição é a principal preocupação de Platão.[nota 102] Uma cidade bem constituída deve permitir aos cidadãos viver em conformidade com o Bem. Essa vida feliz só pode realizar-se a partir do estado da alma e na convivência. A alma é sempre o fim das reflexões políticas e metafísicas de Platão.

As reflexões políticas dos diálogos têm em comum a pergunta sobre como unificar os elementos, as funções e as forças de uma cidade, ou seja, como deve ser a convivência. A política é uma técnica que, em um território e diante de elementos heterogêneos, procura produzir a unidade da cidade por meio de um regime político, politeía[nota 103], também traduzido como "constituição". Esse cuidado com a unidade é a filosofia, e o filósofo é quem, por direito, deve governar.[185]

A busca desse regime constitui o essencial de A República e das Leis, mas os diálogos socráticos já expõem a orientação política de Platão por meio de críticas veementes aos retóricos. A investigação exclui desde o início todas as cidades existentes, democráticas ou aristocráticas. Para Platão, as divisões entre partidos e classes são um sintoma de corrupção, e não se pode chamar de políticos regimes incapazes de fazer os cidadãos viverem juntos.

Em A República, Sócrates busca uma definição da justiça.[p. 53] Ao procurá-la na cidade, examina a distribuição das funções para mostrar que o melhor regime depende do exercício adequado de cada função no conjunto da cidade, e não tanto de um grupo particular. A cidade justa tem três grupos, governantes, guardiões e produtores.[nota 104] Cada grupo tem uma virtude própria, mas não se limita a ela. Os governantes têm sabedoria, temperança e coragem. Os guardiões são corajosos e temperantes e, como os governantes saem desse grupo, também recebem educação para a sabedoria. Os produtores, que são a maioria, têm a temperança.[nota 105]

Nas Leis, Platão põe anciãos a discutir o valor das constituições de cidades diferentes. Para Jean-Jacques Chevallier, ele "abandona o Estado perfeito, conduzido autocraticamente apenas pela sabedoria" e propõe uma constituição mista, entre a monarquia, princípio de sabedoria, e a democracia, princípio de liberdade.[186] A tradição reteve sobretudo "os sonhos fascinantes e perigosos de A República sobre o Estado perfeito [...] o governo autocrático dos sábios, dos melhores".

Mulheres e vida familiar

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Vaso de figuras vermelhas com uma mulher sentada segurando um rolo, cercada por três mulheres em pé.
A leitura aparece nesta cena com mulheres em um vaso grego. Em A República, mulheres com aptidão para exercer as funções de guardião devem receber a mesma educação que os homens.

No livro V de A República, Sócrates sustenta que a diferença entre homens e mulheres não basta para determinar quem pode exercer as funções de guardião. Mulheres com as disposições necessárias devem receber a mesma educação e participar da defesa e do governo da cidade. A proposta se refere às classes dos guardiões e dos governantes e vincula a atribuição das funções à aptidão de cada pessoa.[187]

Para esses grupos, o diálogo propõe refeições e moradia em comum, fortes restrições à propriedade privada e a criação coletiva dos filhos, sem que pais e crianças conheçam seus vínculos biológicos. Os governantes também regulam as uniões e a reprodução, recorrendo a sorteios manipulados para favorecer os pares que consideram mais adequados. Essas medidas procuram impedir que interesses familiares e patrimoniais se sobreponham ao bem da cidade. Os produtores conservam famílias e bens próprios.[p. 54][187]

Classificação dos regimes políticos

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Bloco de pedra com uma grade de pequenas fendas retangulares, exposto sobre uma base.
Um klerotérion, usado em sorteios na democracia ateniense, exemplifica uma instituição de distribuição de funções públicas. A tipologia de Platão distingue os regimes pelo princípio que orienta quem governa.

No livro VIII de A República,[188] Platão apresenta a passagem de um regime político a outro. A sequência não tem valor histórico.[nota 106] Como no Timeu, é uma sucessão sobretudo lógica, por graus de perfeição. Platão distingue cinco regimes. A aristocracia, governo dos melhores, é o único perfeito e corresponde ao ideal do rei-filósofo, que reúne poder e sabedoria. Seguem-se quatro regimes imperfeitos. A timocracia, ou timarquia, se baseia na honra e tende a fazer guerras. A oligarquia se baseia na riqueza e leva à busca de mais riqueza em prejuízo da virtude. A democracia se baseia na equivalência das convicções, e nela ninguém tem a obrigação de governar.[189] A tirania se baseia no desejo e encerra a política ao abolir as leis.

O desequilíbrio que leva uma cidade de um regime a outro corresponde ao desequilíbrio na hierarquia das partes da alma. Uma vida justa exige que o noûs governe o thymós e que este controle a epithymía. A cidade justa exige o governo dos filósofos, cuja virtude essencial é o noûs, a razão. A timocracia corresponde ao governo do thymós, a coragem e o ardor guerreiro próprios dos soldados ou guardiões. A tirania corresponde ao governo da epithymía, no qual dominam apenas as paixões do tirano.

Leis e instituições

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Fragmento de pedra com linhas de letras gregas gravadas, lidas em direções alternadas.
A inscrição do código de Gortina exemplifica a fixação pública de leis no mundo grego. No diálogo Leis, Platão examina como legislação e instituições podem ordenar a vida da cidade.

Nas Leis, o projeto de uma cidade chamada Magnésia prevê 5.040 unidades familiares, cada uma com um lote de terra inalienável[nota 107] dividido em duas parcelas. A família e a propriedade são mantidas, embora sujeitas a limites destinados a preservar a organização da cidade. Magistrados[nota 108], assembleias e guardiões das leis compartilham funções de administração e fiscalização. A legislação é acompanhada de preâmbulos que procuram explicar suas razões e persuadir os cidadãos a observar as normas.[139]

Mito da Atlântida

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Mapa antigo com uma grande ilha chamada Atlântida entre a África, a Espanha e a América; o sul está na parte superior.
A Atlântida foi figurada em mapas posteriores, como este de Athanasius Kircher. Nos diálogos de Platão, o relato serve à reflexão sobre corrupção moral, expansão imperial e destino das cidades.

Em Timeu e Crítias, Platão narra a história de uma ilha imensa, comparável a um continente, chamada Atlântida, que teria existido cerca de 9.000 anos antes de Sólon, segundo Timeu, 23e, e Crítias, 108e. Crítias diz ter recebido o relato de seu avô, também chamado Crítias, que o ouvira de seu pai Drópidas, a quem Sólon o teria contado diretamente. Sólon teria ouvido a história de um sacerdote egípcio de Saís, durante uma viagem ao Egito, em Timeu, 20d–21a, e Crítias, 108a–110d.[p. 55] A origem egípcia da narrativa é discutida. A egiptóloga Amandine Marshall examina possíveis paralelos com narrativas da mitologia egípcia e em que medida essas tradições teriam influenciado o relato de Platão.[190]

A narrativa da Atlântida põe em movimento o modelo de cidade elaborado em A República e apresenta o contraste entre uma potência marítima expansionista e a antiga Atenas idealizada.[nota 109][191] Na narrativa, os atlantes, povo poderoso e expansionista, teriam sido destruídos por um cataclismo que afundou sua ilha no oceano Atlântico, fazendo-os desaparecer para sempre, em Timeu, 25c–d.[p. 56] Para Kathryn A. Morgan, a história também dialoga com preocupações políticas e históricas dos atenienses do século IV a.C., inclusive seus interesses marítimos. A aproximação específica entre a Atlântida e o imperialismo ateniense é uma interpretação acadêmica do mito, não um acontecimento narrado pelo diálogo.[191]

Rei-filósofo

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Detalhe de um afresco com Platão apontando para cima e Aristóteles estendendo a mão à frente; ambos seguram livros.
Platão e Aristóteles no centro de A Escola de Atenas, de Rafael. O ideal do rei-filósofo, formulado em A República, exige que poder político e conhecimento filosófico coincidam.

O filósofo, apresentado pelo personagem de Sócrates,[192] é uma das figuras centrais dos diálogos.[193][194] Platão explica por que une o filósofo ao rei:

A menos, disse eu, que os filósofos venham a reinar nas cidades, ou que aqueles agora chamados reis e governantes filosofem de maneira autêntica e satisfatória, e que o poder político e a filosofia coincidam, a menos que os muitos que se voltam separadamente para um ou outro sejam impedidos pela força, não haverá, meu amigo Glauco, fim dos males das cidades nem, parece-me, dos males do gênero humano.
A República, V, 473c–e.

Para Luc Brisson, a concepção do rei-filósofo se explica pela divisão das tarefas entre os membros da cidade e pela ideia de que poucas pessoas conseguem adquirir o "saber e o domínio de si que o exercício do poder exige".[195]

Duas páginas de um manuscrito grego com figuras de triângulos e quadrados entre os trechos de texto.
Diagramas em um manuscrito dos Elementos de Euclides mostram o raciocínio geométrico. Nos diálogos de Platão, medida e proporção também ajudam a pensar a ordem do cosmo e a vida boa.

Platão se interessou cedo pela noção de medida. No Górgias, Sócrates critica a indisciplina de Cálicles e a atribui à falta de interesse pela geometria. Diz a ele: "Não percebeste que uma igualdade geométrica, geōmetrikḕ isótēs, tem grande poder entre os deuses e os homens."[196] No Protágoras, Sócrates afirma que a virtude é a arte de medir, metrētikḕ tékhnē.[nota 110] Para Dorothea Frede, isso não faz de Platão um utilitarista.[197] Até os diálogos de maturidade, não há indício de que levasse a sério a quantificação da excelência. É no Timeu e no Político que se encontra "uma exploração sistemática do fato de que a medida e a proporção são as condições fundamentais do Bem".[197] No Político, o Estrangeiro distingue a medida quantitativa da medida como qualidade, a justa medida:

É claro que dividiremos a técnica da medida em duas, como dissemos. De um lado, todas as técnicas nas quais o número, o comprimento, a profundidade, a largura e a velocidade são medidos em relação a seus contrários. Do outro, todas as técnicas que se referem à justa medida, ao que é conveniente, oportuno e necessário, a tudo o que fica no meio dos extremos.
Político, 284e.

A medida como qualidade diz respeito ao adequado, prépon[nota 111], ao momento certo, kaírion, ao que deve ser, déon, e ao que não é extremo, méson.[197] A medida quantitativa é desenvolvida no Filebo. Depois de insistir na precisão numérica, sobretudo no procedimento dialético de divisão e reunião dos dados, Sócrates afirma que a vida boa depende de uma mistura de prazer e conhecimento. Distingue quatro classes, "o limite, péras, o ilimitado, ápeiron, a mistura, meîxis, de limite e ilimitado, e a causa, aitía, dessa mistura".[197] Nesse diálogo, "a razão divina é a fonte última de tudo o que é bom e harmonioso no universo, enquanto a razão humana é apenas sua cópia pobre".[197] O prazer tende a ser ilimitado, e a razão é a causa das misturas eficazes. O prazer é apenas um remédio parcial para a falta do bem. Pode ser enganoso, nocivo e violento quando quem o busca se engana sobre seu objeto ou sua quantidade.[197] No Filebo, os prazeres são necessários ao equilíbrio físico e psíquico, mas apenas compensam a imperfeição humana.[197]

O prazer estaria apenas no quinto lugar em valor... Não no primeiro, mesmo que todos os bois, os cavalos e todos os animais disputem entre si para provar o contrário em sua busca do gozo. O vulgo confia neles, como os adivinhos confiam nas aves, para julgar que os prazeres são os fatores mais poderosos da vida boa, e toma os amores dos animais como testemunhas mais autorizadas do que os amores alimentados pelas intuições racionais da musa filosófica.
Filebo, 67b.

Nos últimos escritos, Platão emprega a justa medida em sentido literal, em relação aos avanços da astronomia de sua época. As boas proporções dão origem a entidades e movimentos estáveis.

Quando os homens investigam as leis, toda a sua pesquisa, ou quase toda, se ocupa dos costumes relativos aos prazeres e às dores das cidades e dos indivíduos. São essas as duas fontes às quais a natureza dá livre curso. Se delas se bebe onde, quando e quanto é preciso, há felicidade.
Leis, I, 636e.

O segundo livro das Leis examina a educação que forma os bons hábitos necessários à justa medida entre prazeres e dores. Platão antecipa Aristóteles, que entenderá a virtude como a medida correta entre excesso e falta.[197]

Platonismo depois de Platão

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Platonismo

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Estátua de um homem barbado, de manto, visto de perfil.
Esta estátua de Delfos é tradicionalmente associada a Platão. Sua obra foi retomada por interpretações diferentes, entre elas leituras dogmáticas, céticas e místicas.

Ao longo de mais de dois mil anos, os escritos de Platão foram refutados, retomados e desenvolvidos em direções diferentes, que alteraram a maneira como foram lidos. Sua filosofia se apresenta como temas dispersos em diálogos, mais do que como um sistema.[nota 112] As qualidades literárias por vezes fazem esquecer as filosóficas.[198] Na França, por exemplo, até as últimas décadas do século XX, os diálogos socráticos foram estudados por muito tempo no campo das letras clássicas,[199] enquanto os demais eram tomados como textos de filosofia.[200]

Alguns temas se tornaram conhecidos fora do círculo dos filósofos, por vezes com deformações, como o amor platônico. Outros entraram em uma versão corrente do platonismo que nem sempre dá conta de seus textos. Entre os mais conhecidos e estudados estão:

  • A separação da realidade em dois mundos, sensível e inteligível. O primeiro seria a imagem, o reflexo ou a cópia do segundo, que é paradigma, modelo e realidade verdadeira. Essa concepção[nota 113] foi chamada retrospectivamente de dualismo.
  • A separação da alma e do corpo e o ascetismo de mortificação que se supõe ligado a ela, as Ideias, como Igual, Belo,[201] Bom e Justo, e a reminiscência.
  • Os mitos criados por Platão[202] para tornar compreensíveis pensamentos de difícil acesso, que entraram no pensamento ocidental e em sua arte. Entre eles estão a alegoria da caverna, a alegoria da Terra e o mito de Er, narrativa do destino das almas.

A diversidade dos escritos e das interpretações torna difícil, talvez impossível, uma exposição geral, e as monografias são relativamente raras.[203] Em um artigo, Harold Cherniss[204] propôs entender a teoria das Ideias como uma hipótese econômica[nota 114] que permite resolver as questões ontológicas, éticas e epistemológicas enfrentadas por Platão. Nessa leitura, a teoria unifica os problemas e as soluções. No livro X de A República, Platão explica que a obra de arte é uma imitação de imitação, uma cópia de cópia. O artista imita o objeto produzido pelo artesão ou pela natureza, e esse objeto sensível já é uma cópia de sua essência, a Ideia ou Forma. A arte como produção de objetos é uma imitação de segundo grau, cópia da cópia da Ideia.[nota 115] A obra de arte tem pouco valor, pois está duas vezes afastada da verdade. O artista é um perigo para a realização da república, um ilusionista que faz o falso passar por verdadeiro e pode inverter a ordem dos valores na aparência que constrói.

Platão esteve presente na filosofia da Antiguidade pelo pensamento que legou a autores como Plotino e por ser o filósofo diante do qual os outros precisavam definir sua posição. Inspirou autores e recebeu críticas. Aristóteles, Epicuro e os estoicos elaboraram críticas mais ou menos sistemáticas à sua ética, à teoria do conhecimento e à filosofia política. Plotino o tomou como quase divino, e os Padres da Igreja encontraram nele uma fonte de inspiração. Sua presença em toda a história da filosofia levou a que fosse apresentado como o inventor da disciplina.[205]

O sentido dos escritos de Platão é discutido desde a Antiguidade. Alguns o tomaram como dogmático, outros como cético.[nota 116] Correntes místicas retomaram a elevação da alma ao bem, além do ser, enquanto filosofias inteiramente racionalistas também recorreram a ele. A diversidade dos diálogos, suas formas, as aporias e as perguntas que levantam explicam as divergências de interpretação. Na Antiguidade, os diálogos foram ordenados por uma sequência progressiva de leitura. Os leitores modernos, que pretendem um conhecimento mais crítico, procuraram sobretudo estabelecer a ordem de composição e a autenticidade. Essas tentativas dependem sempre da concepção que se tem do platonismo, o que levou à exclusão mais ou menos arbitrária de certos diálogos e ao questionamento de todos eles.

Favorino dizia sobre Lísias e Platão: "Mude ou suprima uma expressão no discurso de Platão. Por mais habilmente que faça a mudança, alterará a elegância. Faça a mesma experiência com Lísias e alterará o pensamento."[206]

Tradições platônicas

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O movimento platônico se divide em correntes, escolas e períodos, como a Academia de Platão, o médio platonismo e o neoplatonismo. O platonismo matemático, ou realismo matemático, afirma que as entidades matemáticas, como números e figuras geométricas, não são abstraídas pela mente humana, mas existem independentemente dela. Para Platão, "números, linhas, superfícies e sólidos" já tinham existência em si, como substâncias eternas separadas dos seres percebidos pelos sentidos. Para Jacques Bouveresse, o platonismo matemático examina "dois tipos de questões. A primeira é ontológica e diz respeito ao modo de existência dos objetos matemáticos. A segunda é epistemológica e pergunta como reconhecemos esses objetos". Concepções de Charles Hermite,[207] Albert Lautman[208] e Alain Connes[209] se aproximam da de Platão.

Comentadores de Platão

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Página manuscrita em grego com linhas de texto e pequenas anotações nas margens.
Os comentários de Proclo integram a tradição neoplatônica de leitura dos diálogos. Esta página de seu comentário ao Timeu documenta a transmissão dessa atividade interpretativa.

Crantor parece ter composto um comentário ao Timeu no início do século III a.C.[210] Platão passou a receber comentários sistemáticos no século II ou I a.C.[nota 117] Crasso leu o Górgias em Atenas, em 110 a.C., sob a orientação do filósofo da Academia Cármadas. O comentário filosófico ganhou espaço a partir do século III d.C. As aulas de Plotino consistiam sobretudo na explicação de textos de Platão e Aristóteles com o auxílio de comentadores anteriores, como Severo, Crônio, Numênio de Apameia, Gaio e Ático, no caso de Platão.[211] Os neoplatônicos, entre eles Porfírio, Jâmblico e Proclo, escreveram longos comentários dos diálogos. Entre os textos traduzidos para o francês estão Commentaires sur le Timée e Commentaires sur la République, de Proclo, e Commentaires sur le 'Parménide' de Platon, de Damáscio. L. G. Westerink publicou os comentários gregos ao Fédon de Olimpiodoro, o Jovem e Damáscio.[212]

Traduções medievais de Platão

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Duas páginas manuscritas, com texto latino e figuras geométricas coloridas na margem direita.
A tradução latina de parte do Timeu, feita por Calcídio no século IV, ajudou a transmitir o diálogo ao Ocidente medieval. Este manuscrito do século X conserva texto e diagramas geométricos.

Apenas uma pequena parte dos textos de Platão foi traduzida para o latim e esteve acessível na Idade Média.[213] Esses textos foram publicados no Corpus Platonicum Medii Aevi,[nota 118][214] dividido em uma seção de traduções latinas e outra de traduções árabes:

  • Plato latinus, editado por R. Klibansky a partir de 1950 em três volumes, reúne:
    • Timeu, traduzido por Calcídio no século IV, até 53c, como parte de um comentário.
    • Ménon, traduzido por Henrique Aristipo em meados do século XII, no volume 1.
    • Fédon, traduzido por Henrique Aristipo, no volume 2.
    • Parmênides, com o comentário de Guilherme de Moerbeke, depois de 1260, no volume 3.
  • Plato arabus, com Al-Farabi, reúne uma sinopse do Timeu atribuída a Galeno,[nota 119] De Platonis Philosophia, de Al-Farabi, e seu tratado sobre as Leis.

O projeto editorial do Corpus Platonicum Medii Aevi também produziu estudos sobre o platonismo. Na Idade Média, outros trechos de Platão eram acessíveis pelas citações de Aristóteles, Macróbio, Agostinho, Nemésio, Boécio e Averróis.

Os humanistas italianos dos séculos XIV e XV reencontraram gradualmente Platão e tornaram seus escritos acessíveis.[nota 120][215] Marsílio Ficino realizou a principal tradução latina dos diálogos na segunda metade do século XV.[213]

Platão na filosofia analítica

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Fotografia em preto e branco de Frege sentado, de barba branca, com um livro aberto nas mãos.
Gottlob Frege retomou a ideia de que o pensamento lógico independe das representações psicológicas individuais, um dos aspectos do platonismo discutidos na filosofia analítica.

As teses de Platão e os problemas que ele próprio levantou sobre elas[nota 121] continuam a ser discutidos e defendidos na filosofia analítica,[18] como acontece no platonismo matemático.[216] Karl Popper criticou o "comunismo de Platão",[217] enquanto Gottlob Frege[218] e Bertrand Russell[219] retomaram aspectos do platonismo. Gilbert Ryle chamou a atenção para diálogos como Teeteto no estudo filosófico.[220] Imre Toth se opôs ao platonismo de Frege, que chamou de "escolar" por hipostasiar[nota 122] as leis lógicas. Defendeu um platonismo mais livre e aberto, inspirado nos diálogos tardios e relido à luz das geometrias não euclidianas.[221]

Ensino oral de Platão

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Gravura de um mestre em pé falando a um grupo de homens reunidos ao ar livre, alguns sentados e outros em pé.
Uma representação posterior de Platão ensinando na Academia, por Carl Johan Wahlbom. Os testemunhos sobre o ensino oral complementam os diálogos, embora sua interpretação permaneça discutida.

Platão teria oferecido "um ensino oral e esotérico na Academia"[nota 123], mas suas motivações são desconhecidas. Aristóteles[p. 57] fala dos "ensinamentos não escritos", ἄγραφα δόγματα, ágrapha dógmata, e menciona uma aula "Sobre o Bem", Περὶ τἀγαθοῦ, Perì tagathoû, que Platão deu. Para surpresa de ouvintes como Aristóteles, Histieu, Heráclides do Ponto, Espeusipo e Xenócrates,[222] a aula se ocupava "da matemática, ou seja, dos números, da geometria, da astronomia e do fato de que o Bem é o Uno".[p. 58]

Platão reconhece os limites da escrita:[223]

A escrita, Fedro, tem um grave inconveniente, assim como a pintura. Os produtos da pintura parecem vivos, mas, se lhes fazes uma pergunta, permanecem gravemente em silêncio. O mesmo acontece com os discursos escritos.
Fedro, 275d.

Em La pharmacie de Platon, Jacques Derrida comenta a primazia da fala sobre a escrita no mito de Theuth, presente no Fedro, e examina o logocentrismo do pensamento platônico.[224]

Platão faz alusões a conhecimentos secretos[p. 59] e a um saber mais fundamental.[225] Para H. J. Krämer, esse ensino oral pode remontar à fundação da Academia. Para K. Gaiser, é posterior, por volta de 350 a.C.[226] Por um longo tempo, as chamadas doutrinas não escritas de Platão foram academicamente controversas.[227][228][229]

Marie-Dominique Richard resume esse ensino oral[230] como "uma doutrina emanacionista que, pela ação recíproca dos dois princípios, o Uno-Limite e a Díade indefinida do Grande e do Pequeno, gera primeiro os Números ideais, depois as Ideias e, a partir delas, por um processo matemático de determinação, o próprio sensível". Nessa reconstrução controversa dos ensinamentos não escritos, os dois princípios seriam o Uno, associado à unidade, e a Díade indefinida do Grande, excesso, e do Pequeno, falta, associada à multiplicidade; não equivalem simplesmente a uma oposição entre Bem e Mal.[231] Entre eles ficam seres intermediários, metaxý. Platão identifica as Ideias e os Números ideais. Os objetos matemáticos abrangem o inteligível e o sensível, em vez de ficar em sua fronteira. A hierarquia é a seguinte:

  1. O Uno, primeiro princípio, Mônada, idêntico ao Bem.
  2. As Ideias superiores ou Números ideais, os números da Década, 1, 2, 3 e 4, que correspondem às dimensões do Todo, número, linha, superfície e volume.
  3. As Ideias particulares, compostas de forma, a Mônada, e matéria, a Díade.
  4. A alma do mundo, os seres matemáticos e o sistema das almas individuais. Nesse nível age o demiurgo, que compõe os quatro elementos com triângulos, em Timeu, 55.
  5. O sensível, mundo dos corpos visíveis, o Todo vivo e ordenado, figurado por um dodecaedro.
  6. No nível mais baixo, o segundo princípio, a Díade, o Grande-e-Pequeno, matéria sem forma e causa material de todos os seres[nota 124].

Essa reconstrução antecipa aspectos do esquema de Plotino, com suas três hipóstases ou princípios divinos, Uno, Intelecto, que compreende as Ideias superiores e particulares, e Alma. Os Números ideais vêm antes das Ideias,[nota 125] e estas, que parecem proceder dos números da Década, seriam números. Léon Robin estudou a teoria em La théorie platonicienne des Idées et des Nombres d'après Aristote, de 1908. Marie-Dominique Richard reuniu, editou e traduziu os testemunhos.[232][233] Aristóteles afirma que a teoria do Uno e da Díade antecipa sua distinção entre causa formal e causa material.[234] Neoplatônicos próximos do pitagorismo, como Siriano, Nicômaco de Gerasa e Jâmblico, assimilaram o Uno à Mônada e identificaram a oposição entre Limite e Ilimitado do Filebo, 16c, com a de Mônada e Díade dos pitagóricos.[235] Alguns especialistas, entre eles Harold Cherniss,[236] negam esse ensino oral. A identificação da Ideia do Bem com uma divindade suprema é uma interpretação debatida, e não uma equivalência explícita e indiscutível nos diálogos.[237] O bem também tem um papel na axiologia e na reflexão moral de Platão.

Transmissão textual

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Página manuscrita com texto grego no centro e numerosas anotações nas margens.
A transmissão dos diálogos dependeu de cópias manuscritas. Esta abertura do Eutífron pertence ao Clarke Plato, copiado em 895 e conservado na Biblioteca Bodleiana.

O texto dos diálogos chegou à atualidade por uma tradição de cópias manuscritas, complementada por fragmentos em papiro e por citações de autores antigos.[nota 126] Um de seus testemunhos medievais[nota 127] mais importantes é o manuscrito MS. E. D. Clarke 39, conservado na Biblioteca Bodleiana, em Oxford. Copiado em Constantinopla em 895 por João, o Calígrafo, por encomenda de Aretas de Cesareia, reúne 24 diálogos correspondentes às seis primeiras tetralogias[nota 128], com comentários nas margens.[238]

Cronologia dos diálogos de Platão

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Fragmento de papiro com colunas de escrita grega, bordas irregulares e lacunas.
Este papiro conserva trechos de O Banquete. A cronologia da composição dos diálogos é investigada por comparação de estilo, vocabulário e ideias.

Platão teria escrito 35 diálogos. Costumam ser reconhecidos três grandes conjuntos, os diálogos socráticos curtos, nos quais Sócrates tem o papel principal, os intermediários, com amplos esquemas metafísicos, como A República e O Banquete, e os tardios, como as Leis, nos quais Sócrates perde o protagonismo e os problemas filosóficos são examinados em mais detalhes.[107] Especialistas em estilo, estatística lexical[nota 129][239] e história das ideias organizaram os 35 diálogos atribuídos a Platão em grupos, sem concordar sempre sobre a sequência exata ou a divisão dos períodos.[240] A classificação por estilometria pode ser apresentada em quatro grupos:[241][242]

  1. Primeira fase, obras iniciais, 399–390 a.C. Reúne os diálogos que não estão nos três grupos seguintes, escritos pouco depois da morte de Sócrates, como Apologia de Sócrates, Críton, Protágoras e Laques.
  2. Primeira fase, transição, 390–385 a.C. Ménon, Górgias, Hípias Maior, Eutidemo, Lísis e Menexeno.
  3. Segunda fase, maturidade, 385–370 a.C. O Banquete, Crátilo, Fédon, A República e Fedro.
  4. Terceira fase, 370–347 a.C. Parmênides, Teeteto, Leis, Filebo, Sofista, Político, Timeu e Crítias.

Platão, porém, é um escritor e poeta de muitos recursos, e a variação de estilo exige cautela nas tentativas de ordenar seus textos. A estilometria permite reconhecer grupos, especialmente os diálogos tardios, mas não estabelece por si só uma sequência completa ou datas exatas de composição.[24]

Detalhes das obras

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A categoria principal é Obras de Platão.

O conjunto de textos atribuídos a Platão tem mais de trinta diálogos, cartas, um livro de definições e seis diálogos apócrifos[nota 130]. A lista segue a ordem cronológica proposta por Luc Brisson. Para Brisson, os subtítulos, apresentados depois dos títulos, não são de Platão, mas de Pompônio Ático.

Autenticidade duvidosa[nota 132]

Obras apócrifas, o Pseudo-Platão

Organização antiga do corpus

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A classificação em nove tetralogias, associada a Trásilo e transmitida por Diógenes Laércio, reúne 36 unidades: diálogos, a Apologia e o conjunto das treze cartas. Cada tetralogia contém quatro obras. Essa organização antiga não corresponde à cronologia de composição[nota 133] e inclui escritos cuja autenticidade é discutida.[p. 60]

Tetralogias tradicionais do corpus platônico
TetralogiaObras
IEutífron, Apologia de Sócrates, Críton e Fédon
IICrátilo, Teeteto, Sofista e Político
IIIParmênides, Filebo, O Banquete e Fedro
IVPrimeiro Alcibíades, Segundo Alcibíades, Hiparco e Amantes Rivais
VTeages, Cármides, Laques e Lísis
VIEutidemo, Protágoras, Górgias e Ménon
VIIHípias Maior, Hípias Menor, Íon e Menexeno
VIIIClitofonte, A República, Timeu e Crítias
IXMinos, Leis, Epínomis e Epístolas

Diógenes Laércio também registra uma organização anterior em trilogias, atribuída a Aristófanes de Bizâncio, que agrupava parte dos escritos. A existência de classificações diferentes mostra que a ordem editorial e a ordem de leitura já eram discutidas na Antiguidade.[p. 60]

Edições

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Página impressa em grego, com título no alto, texto central e letras iniciais destacadas.
A impressão ampliou a circulação do corpus platônico. Esta abertura do Timeu pertence à primeira edição grega impressa, publicada em Veneza em 1513.
  • Omnia Platonis Opera. Veneza, 1513.
  • Platonis omnia Opera cum commentariis Procli in Timaeum et Politica. Basileia, 1534.
  • Platonis Opera quae extant omnia, ex nova Joan. Serrani interpretatione, perpetuis ejusdem notis illustrata. 3 volumes. Genebra: H. Estienne, 1578. Essa edição inicia o estudo filosófico moderno de Platão.[243]
  • Platonis Dialogi, graece et latine, ex recensione Imm. Beckeri. 3 tomos em 8 volumes, em oitavo[nota 134]. Berlim, 1816–1818.
  • Platonis Opera, omnia recensuit et commentariis instruxit Stallbaum. 12 volumes, em oitavo. Leipzig, 1827 e anos seguintes.
  • Platonis Opera, graice, recensuit et adnotatione critica instruxit Schneider. Em oitavo. Leipzig, 1830–1833.
  • Platonis opera. Recognovit brevique adnotatione critica instruxit Burnet. 5 volumes. Oxford, 1900–1910.
  • Platão. Œuvres complètes. Les Belles Lettres, 14 volumes.

Sistema de referências

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Livro aberto nas páginas 32 e 33, com colunas de texto grego e latino e letras de referência nas margens.
A paginação de Stephanus, baseada na edição de 1578, permite localizar uma passagem independentemente da tradução. Aqui aparecem as páginas 32 e 33 do Timeu, com texto grego e latino.

As passagens de Platão costumam ser citadas pela paginação de Stephanus, baseada na edição de 1578 de Henri Estienne, cujo nome latino era Henricus Stephanus. O sistema combina o título da obra, o número da página e uma letra de a a e, correspondente a uma de suas cinco subdivisões. Assim, "A República, 514a" identifica uma passagem independentemente da paginação de uma tradução moderna. Edições e traduções reproduzem essas indicações nas margens ou no próprio texto.[244]

Traduções

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Retrato pintado de Ficino, de perfil, usando gorro e roupa vermelhos.
A tradução latina dos diálogos por Marsílio Ficino, no século XV, foi uma etapa importante da transmissão de Platão. Traduções posteriores ampliaram o acesso à sua obra em outras línguas.

As traduções de Émile Chambry costumam ser julgadas imprecisas, e as de Léon Robin, as mais rigorosas. Para Luc Brisson, "quando se tem o texto grego diante dos olhos, percebe-se que nada falta a essas traduções e que elas procuram dar conta de todas as palavras".[199] Essa exatidão, porém, tende a dificultar a leitura do texto francês. Nas apresentações da vida e da filosofia de Platão, Chambry tomou muito de Alcino, autor do Ensinamento das doutrinas de Platão.

  • Platão (1950). Œuvres complètes. Col: Bibliothèque de la Pléiade (em francês). Tradução de Léon Robin. Paris: Gallimard 
  • Platão (2011). Œuvres complètes (em francês). Tradução de Luc Brisson e outros. Paris: Flammarion. ISBN 978-2-0812-4937-0  Reúne as traduções de bolso publicadas pela mesma editora na coleção GF, além dos diálogos de autenticidade duvidosa.

Alguns textos traduzidos podem ser encontrados no Wikisource em francês. O Wikilivros em francês também oferece orientações de leitura.

Traduções em português

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No Brasil, Carlos Alberto Nunes traduziu os diálogos diretamente do grego. A tradução foi doada à Universidade Federal do Pará em 1973, e a primeira edição da coleção foi concluída no início de 1980. Em 2011, a editora da universidade iniciou uma edição revista e bilíngue, com os textos grego e português em páginas correspondentes.[245]

Em Portugal, a tradução de A República por Maria Helena da Rocha Pereira, com introdução e notas, foi publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian em 1972 e recebeu sucessivas reimpressões.[246]

"Platão Meditando sobre a Imortalidade da Alma", ante uma caveira, borboleta e papoula na tumba de Sócrates. Gravura do século XIX, alegadamente baseada em um intaglio em gema mais antigo.

Apesar de sua popularidade ter flutuado ao longo dos anos, as obras de Platão nunca ficaram sem leitores, desde o tempo em que foram escritas.[247] O pensamento de Platão é muitas vezes comparado com a de seu aluno mais famoso, Aristóteles, cuja reputação, durante a Idade Média ocidental, eclipsou tão completamente a reputação de Platão que os filósofos escolásticos referiam-se a Aristóteles como "o Filósofo". No entanto, no Império Bizantino, o estudo de Platão continuou.

Os filósofos escolásticos medievais não tinham acesso à maioria das obras de Platão, nem o conhecimento de grego necessário para lê-los. Os escritos originais de Platão estavam essencialmente perdidos para a civilização ocidental, até que foram trazidos de Constantinopla no século de sua queda, por Gemisto Pletão. Acredita-se que Pletão passou uma cópia dos diálogos platônicos para Cosme de Médici em 1438/39 durante o Conselho de Ferrara,[248] quando foi chamado para unificar as Igrejas grega e latina e então foi transferido para Florença onde fez uma palestra sobre a relação e as diferenças de Platão e Aristóteles; assim, Pletão teria influenciado Cosme com seu entusiasmo.[249]

Durante a Era de Ouro Islâmica, estudiosos persas e árabes traduziram muito de Platão para o árabe e escreveram comentários e interpretações sobre Platão, Aristóteles e obras de outros filósofos platônicos (ver Alfarábi, Avicena, Averróis, Hunaine ibne Isaque). Muitos desses comentários sobre Platão foram traduzidos do árabe para o latim e, como tal, influenciaram filósofos escolásticos medievais.[250]

Filósofos ocidentais notáveis continuaram a recorrer a obra de Platão desde aquela época. A influência de Platão tem sido especialmente forte em matemática e ciências. Ele ajudou a fazer a distinção entre a matemática pura e a matemática aplicada, ampliando o fosso entre a "aritmética", agora chamada de teoria dos números e "logística", agora chamada de aritmética. Ele considerou a logística como apropriada para homens de negócios, enquanto os homens de guerra "devem aprender a arte de números ou ele não vai saber como reunir suas tropas", e a aritmética era apropriada para os filósofos "porque precisa emergir do mar de mudanças e lançar mão do verdadeiro ser".[251]

Segundo Stephen Körner, o platonismo é "tendência natural do matemático", o que pode ser confirmado por nomes destacados de matemáticos que se reconhecem platônicos como Gottlob Frege, Bertrand Russell, A. N. Whitehead, Heinrich Scholz, Kurt Gödel, Alonzo Church, Georg Cantor etc. Partindo de Galileu, existe uma extensa tradição do platonismo fisicalista que vai até Werner Heisenberg, Roger Penrose, Frank Tipler, Stephen Hawking e muitos outros.[252]

Gödel, responsável por alguns dos mais importantes resultados da lógica matemática do século XX, por exemplo, foi um platonista da velha escola que, como Platão, acreditava na existência independente de formas matemáticas que ele identificou aos conceitos matemáticos, como os de conjuntos, número real etc.[253]

Leo Strauss é considerado por alguns como o principal pensador envolvido na recuperação do pensamento platônico em sua forma mais política e menos metafísica. Profundamente influenciado por Nietzsche e Heidegger, Strauss, no entanto, rejeita a condenação de Platão e olha para seus diálogos como uma solução para o que todos os três pensadores reconhecem como "a crise do Ocidente".[254] Ele também era contra a disseminação maciça do conhecimento baseando-se em Platão, já que as pessoas não tendo a vocação para lidar com a verdade, apoiariam propostas antiéticas.[255]

Hobbes considerou Platão como o melhor filósofo da Antiguidade clássica, pela razão de sua filosofia ter como como ponto de partida ideias, enquanto que Aristóteles partia de palavras. Para Hobbes, Platão estaria apto a elaborar uma filosofia política por evitar conclusões falaciosas acerca do "o que é", "o que foi", "o que deveria ser".[256][257]

No século XX, os metafísicos René Guénon e Frithjof Schuon, foram dois influentes autores que re-elaboraram e atualizaram em linguagem contemporânea o pensamento universal e perene de Platão, por eles visto como um eminente representante da Filosofia Perene. Nos livros de ambos, como em A Crise do Mundo Moderno e O Reino da Quantidade, de Guénon, e A Unidade Transcendente das Religiões,[258] Forma e Substância nas Religões[259] e O Homem no Universo, de Schuon, as ideias de Platão são expostas e discutidas em profundidade.

Homenagens

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Representações artísticas e instituições

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Duas esculturas de homens sentados diante de um edifício neoclássico, Platão à esquerda e Sócrates à direita.
Na fachada da Academia de Atenas, Platão e Sócrates são representados lado a lado. A instituição moderna recorda a tradição filosófica ligada à antiga Academia.

O nome de Platão permaneceu ligado à palavra "academia", derivada do lugar da escola que fundou em Atenas. A Academia de Atenas, criada em 1926, retomou essa tradição em sua denominação. Duas esculturas sentadas de Platão e Sócrates, feitas por Leonidas Drosis, estão diante do edifício.[260]

No afresco A Escola de Atenas, de Rafael, Platão ocupa o centro ao lado de Aristóteles. Segundo os Museus Vaticanos, aponta para cima e segura o Timeu, enquanto Aristóteles traz a Ética.[261] Em 1815, Pavlos Prosalentis esculpiu um busto de Platão hoje exposto na Galeria Nacional da Grécia. A inscrição gravada pelo escultor o apresenta como o primeiro busto da arte grega moderna, segundo o catálogo da instituição.[262] O Rijksmuseum, em Amsterdã, cataloga outro busto de mármore de Platão, datado de 1635 ou antes e atribuído a Orfeo Boselli; a identificação e a autoria da peça foram objeto de discussão.[263]

Uma gravura de Salvator Rosa, intitulada A Academia de Platão, representa homens reunidos em discussão num bosque e integra a coleção da Galeria Nacional de Arte, em Washington.[264] A presença de Platão na arte ultrapassa a Europa: uma miniatura atribuída ao pintor indiano Basawan, produzida em 1597–1598 para uma obra de Amir Khusrau, apresenta um encontro literário entre o sábio Platão e Alexandre, o Grande. Na cena, Platão aconselha o rei; trata-se de uma representação de uma narrativa posterior, e não do registro de um encontro histórico.[265]

Cratera lunar de fundo escuro e relativamente plano, cercada por bordas elevadas e acidentadas.
A cratera lunar Platão, fotografada pela Lunar Reconnaissance Orbiter, recebeu oficialmente o nome do filósofo em 1935.

Na sala principal de leitura da Biblioteca do Congresso, em Washington, uma estátua de Platão, obra de John J. Boyle, integra o conjunto de retratos ligados às áreas do conhecimento; ele aparece na categoria da filosofia, ao lado de Francis Bacon.[266] Nos Estados Unidos, o Museu de Arte da Universidade Hofstra conserva a escultura ao ar livre Plato Having a Dialogue with Socrates (1999), de Mihail Chemiakin. Platão está à mesa diante de um busto de Sócrates; o lugar vazio permite que visitantes se sentem e participem simbolicamente da conversa.[267]

Astronomia e exploração espacial

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A União Astronômica Internacional aprovou em 1935 o nome de Platão para a cratera lunar que homenageia o filósofo. O catálogo oficial registra um diâmetro de cerca de 100,7 quilômetros.[268] O asteroide (5451) Plato também recebeu seu nome; a citação do nome astronômico identifica expressamente o filósofo grego.[269]

O nome aparece ainda na missão espacial Plato, da Agência Espacial Europeia, destinada ao estudo de planetas em torno de outras estrelas. Nesse caso, o nome também funciona como sigla inglesa de PLAnetary Transits and Oscillations of stars, expressão que se refere aos trânsitos planetários e às oscilações das estrelas.[270]

Notas

  1. ↑ O gramático Apolodoro de Atenas argumenta, nas suas Crônicas, que Platão nasceu no primeiro ano da 88ª Olimpíada (427 a.C.), no sétimo dia do mês de Targélion; de acordo com esta tradição, o deus Apolo teria nascido neste dia.[3] De acordo com outro biógrafo seu, Neantes, Platão teria 84 anos de idade ao morrer.[3] De acordo com a versão de Neantes, Platão era seis anos mais novo que Isócrates, e teria portanto nascido no segundo ano da 87ª Olimpíada, ano da morte de Péricles (429 a.C).[4] De acordo com a Suda, Platão teria nascido em Egina, na 88ª Olimpíada, em meio à fase preliminar da Guerra do Peloponeso, e teria vivido 82 anos.[5] Para o estudioso inglês do século XVI, sir Thomas Browne, Platão teria nascido de fato na 88ª Olimpíada;[6] o célebre platonista do Renascimento celebrava o nascimento de Platão no dia 7 de novembro.[7] Já para o filólogo alemão Ulrich von Wilamowitz-Moellendorff, Platão teria nascido quando Diótimos era arconte epônimo, mais especificamente entre 29 de julho de 428 a.C. e 24 de julho de 427 a.C.[8] O filólogo grego acredita que o filósofo teria nascido em 26 ou 27 de maio de 427 a.C., enquanto o filósofo britânico Jonathan Barnes estipula 428 a.C. como o ano de nascimento de Platão.[9] Já a filósofa americana Debra Nails alega que Platão teria nascido em 424/423 a.C.[7]
  2. ↑ Diógenes Laércio menciona que Platão "nasceu, segundo alguns escritores, em Egina, na casa de Fidíades, filho de Tales". Diógenes menciona como uma de suas fontes a História Universal de Favorino. De acordo com Favorino, Aristão, pai de Platão, e sua família, foram enviados por Atenas para fixarem-se como clerúquios (colonos mantendo sua cidadania ateniense) na ilha de Egina, de onde foram expulsos pelos espartanos após Platão nascer lá.[10] Nails indica, no entanto, que não há registro de qualquer expulsão de atenienses de Egina por parte dos espartanos entre 431 e 411 a.C.[11] Por outro lado, no Tratado de Nícias, Egina foi silenciosamente deixada sob o controle de Atenas, e não foi até o verão de 411 a.C. que os espartanos invadiram a ilha. Egina é considerada como o local de nascimento de Platão também segunda a Suda.[5]
  3. ↑ Diógenes Laércio menciona que Platão "nasceu, segundo alguns escritores, em Egina, na casa de Fidíades, filho de Tales". Diógenes menciona como uma de suas fontes a História Universal de Favorino. De acordo com Favorino, Aristão, pai de Platão, e sua família, foram enviados por Atenas para fixarem-se como clerúquios (colonos mantendo sua cidadania ateniense) na ilha de Egina, de onde foram expulsos pelos espartanos após Platão nascer lá.[10] Nails indica, no entanto, que não há registro de qualquer expulsão de atenienses de Egina por parte dos espartanos entre 431 e 411 a.C.[11] Por outro lado, no Tratado de Nícias, Egina foi silenciosamente deixada sob o controle de Atenas, e não foi até o verão de 411 a.C. que os espartanos invadiram a ilha. Egina é considerada como o local de nascimento de Platão também segunda a Suda.[5]
  4. ↑ Entre a vida de Platão e esses relatos passaram muitas gerações. Por isso, detalhes que aparecem apenas neles podem ser tradições posteriores, e não lembranças de testemunhas.
  5. ↑ Era o professor que orientava os exercícios físicos de crianças e jovens na Grécia antiga. Porto Editora, "pedótriba", Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa.
  6. ↑ Os lutadores de Argos eram famosos.
  7. ↑ A música tem um papel importante na preservação, no aperfeiçoamento ou na destruição das instituições. Platão, Leis, II, 659b–c e III, 701a, e A República, 401d.
  8. ↑ Um relato feito depois pode atribuir ao jovem Platão experiências que parecem anunciar sua obra madura. Essa ligação dá sentido à história, mas não prova que o episódio aconteceu.
  9. ↑ A autoria da Carta VII divide os estudiosos. Luc Brisson a utiliza como documento autobiográfico em "La lettre VII de Platon, une autobiographie", em L'Invention de l'autobiographie, Presses de l'École Normale Supérieure, 1993, p. 36–46. Myles Burnyeat e Michael Frede defendem sua inautenticidade em The Pseudo-Platonic Seventh Letter, organizado por Dominic Scott, Oxford University Press, 2015. Richard Kraut também apresenta a questão como controversa em "Plato", Stanford Encyclopedia of Philosophy, revisão de 24 de abril de 2026.
  10. ↑ A história sugere uma perda brusca da condição de homem livre, mas depende de uma fonte tardia. Os estudiosos não conseguem confirmar que Platão tenha sido escravizado.
  11. ↑ A palavra "Academia" veio do lugar onde o grupo se reunia, ligado ao nome de Academo. Não indica, nessa época, uma universidade com diploma e calendário como as atuais.
  12. ↑ Na atual Turquia, na foz do Hebro.
  13. ↑ Currículo é o conjunto organizado do que se ensina. Sabemos que havia estudos e discussões na Academia, mas não temos um programa de aulas para cada aluno.
  14. ↑ São postos de professor dedicados ao ensino de uma área ou, nesse caso, de uma escola filosófica.
  15. ↑ Nesse trecho, "pagão" se refere às tradições religiosas e filosóficas que não eram cristãs.
  16. ↑ Se uma Ideia se relaciona com outra, é preciso explicar como isso acontece sem que elas deixem de ser distintas. O Sofista usa essa pergunta para investigar, entre outras coisas, a possibilidade de dizer algo falso.
  17. ↑ Significa mistura ou combinação. No Sofista, a questão é saber quais Ideias podem se combinar sem produzir contradições. Platão, Sofista, 251a–253e.
  18. ↑ A relação vale em um sentido, mas não no outro: uma coisa bela depende da Beleza para ser bela; a Beleza não depende daquela coisa para existir. Platão, Fédon, 100c–d, e Parmênides, 130b–131e.
  19. ↑ São as coisas que percebemos pelos sentidos, como corpos, cores e sons. Nesse uso, "sensível" tem a ver com a percepção. Platão, A República, 509d–511e.
  20. ↑ A palavra significa compartilhamento ou comunhão. Entre as Ideias, indica que elas podem ter relações umas com as outras. Platão, Sofista, 251a–253e.
  21. ↑ A mina era uma unidade usada na Antiguidade para pesar metais e indicar valores em dinheiro. Priberam, "mina", Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, acepção histórica.
  22. ↑ No Timeu, a harmonia envolve proporções numéricas como as dos intervalos musicais. Platão usa essas proporções para descrever a alma do mundo. Platão, Timeu, 35b–36b.
  23. ↑ O ilimitado admite sempre mais ou menos, como algo mais quente ou mais frio. O limite dá uma medida definida a essa variação. Platão, Filebo, 23c–27c.
  24. ↑ Esse número pode refletir o gosto antigo por dar sentido à idade de um sábio. Não há como usá-lo como certidão de nascimento ou de morte.
  25. ↑ Os rolos de Herculano foram carbonizados pela erupção do Vesúvio. Mesmo frágeis e difíceis de ler, conservaram partes de textos antigos que não chegaram até nós por outros caminhos.
  26. ↑ Uma doxografia reúne as opiniões de vários pensadores sobre um tema. Platão cita e encena outros autores, mas em geral não oferece um inventário organizado de suas posições.
  27. ↑ Eram as pessoas admitidas no grupo e autorizadas a receber seus ensinamentos.
  28. ↑ Nos diálogos de Platão, "ciência" pode traduzir o grego epistḗmē, que significa conhecimento. O termo costuma indicar um saber fundamentado, com um sentido mais amplo que o das ciências experimentais atuais. Sophie-Grace Chappell e Francesco Verde, "Plato on Knowledge in the Theaetetus", seção 1, revisão de 7 de fevereiro de 2025.
  29. ↑ Ao contrário de Pitágoras, porém, Platão não produziu nada em matemática, ao menos nada que esteja documentado.
  30. ↑ "Matar" é uma imagem para contestar uma tese de um pensador muito respeitado, não um chamado à violência. O problema é explicar como alguém pode dizer algo que não corresponde à realidade.
  31. ↑ O termo "discípulo" aparece entre aspas intencionalmente. Pode ser exagerado, se considerarmos que Platão faz Sócrates dizer: "De minha parte, nunca fui mestre de ninguém".
  32. ↑ Diógenes Laércio conta: "Diz-se que Sócrates teve um sonho. Viu em seu colo um cisne, ave tutelar de Apolo, que se cobriu de penas e saiu voando. No dia seguinte, Platão se juntou a ele como discípulo. E Sócrates declarou que Platão era a ave que vira no sonho".
  33. ↑ É um personagem identificado pela cidade de onde vem, sem nome próprio. Ele conduz a conversa no Sofista e no Político. Platão, Sofista, 216a–217c, e Político, 257a–258b.
  34. ↑ Essa é uma leitura do modo como Platão construiu a cena. O diálogo não deve ser tratado automaticamente como uma transcrição literal dos últimos momentos de Sócrates.
  35. ↑ A palavra sugere algo fora do lugar ou fora do comum. No caso de Sócrates, indica como sua maneira de agir e perguntar surpreendia as pessoas. Platão, O Banquete, 221c–d.
  36. ↑ Poemas como os de Homero eram aprendidos, recitados e discutidos. Também transmitiam exemplos de conduta e imagens dos deuses, por isso Platão lhes deu tanta atenção.
  37. ↑ É aquilo que se compreende pela razão. Para Platão, o pensamento pode conhecer realidades que os sentidos não alcançam. Platão, A República, 509d–511e.
  38. ↑ É a tese de que quem possui poder consegue impor o que chama de justo. Platão a coloca em debate, especialmente quando seus personagens discutem se a justiça pode ter um fundamento melhor.
  39. ↑ Platão trata dessa questão no primeiro livro de A República e no Górgias.
  40. ↑ É uma proposta sobre o que existe e como existe. Aqui, a proposta é que as Formas existam e permitam explicar o conhecimento e as qualidades das coisas.
  41. ↑ Platão põe personagens históricos para conversar, mas pode reorganizar encontros e acontecimentos para examinar um problema. A cena de um diálogo não prova, por si só, que aquela conversa ocorreu.
  42. ↑ Um tratado apresenta um assunto por uma exposição contínua. No diálogo, a investigação acontece em uma conversa entre personagens, com perguntas, respostas e objeções.
  43. ↑ Uma fala pertence primeiro ao personagem que a pronuncia. Para atribuí-la ao próprio Platão, é preciso considerar o diálogo inteiro e as objeções apresentadas pelos outros participantes.
  44. ↑ Parte-se de uma hipótese e se pergunta o que teria de ser verdadeiro se ela fosse aceita. As consequências podem revelar dificuldades ou contradições. Platão, Parmênides, 135c–136c.
  45. ↑ Parte-se de um grupo amplo e se distinguem grupos menores pelas diferenças entre eles, até chegar às características daquilo que se quer definir. Platão, Sofista, 218b–221c.
  46. ↑ Nesse argumento, adular é procurar agradar o público sem saber o que lhe faz bem. Sócrates distingue esse agrado imediato de um cuidado guiado pelo conhecimento. Platão, Górgias, 463a–465e.
  47. ↑ A reunião procura o que diferentes casos têm em comum, para reconhecê-los sob uma mesma ideia. Platão, Fedro, 265d–266b.
  48. ↑ Aqui, mito é uma narrativa usada para pensar uma questão difícil, como a origem do mundo ou o destino da alma. Não significa simplesmente uma história contada para enganar.
  49. ↑ É uma narrativa que oferece uma explicação plausível. No Timeu, ela não tem a mesma certeza atribuída ao conhecimento do que é imutável. Platão, Timeu, 29b–d.
  50. ↑ São alterações ou impressões produzidas no corpo. Nem toda alteração corporal chega a ser percebida pela alma. Platão, Timeu, 43c–44a e 64a–c.
  51. ↑ Um juízo afirma algo sobre o que percebemos ou pensamos, como dizer que duas coisas são iguais. Para fazer essa comparação, é preciso relacionar o que foi percebido. Platão, Teeteto, 184b–186d.
  52. ↑ Uma opinião pode acertar sem que a pessoa saiba explicar por que acertou. A pergunta do diálogo é o que falta a esse acerto para que seja conhecimento.
  53. ↑ Aqui, corromper-se significa desfazer-se ou deixar de ser o que se era, como acontece quando algo perece.
  54. ↑ Sócrates examina a ideia de que aquilo que parece verdadeiro a cada pessoa é verdadeiro para ela. Isso torna difícil explicar por que uma percepção ou um julgamento poderia estar errado.
  55. ↑ "Mobilismo" é a ideia de que as coisas estão sempre mudando. A dúvida de Platão é como conhecer com segurança algo que não permanece igual.
  56. ↑ Esse final é chamado de aporético: as respostas examinadas mostram dificuldades, e a conversa termina com uma questão ainda aberta.
  57. ↑ Se muitas ações são chamadas de corajosas, Sócrates procura o que faz todas elas serem casos de coragem. Dar apenas um exemplo não responde à pergunta sobre o que têm em comum.
  58. ↑ É a existência que independe do que alguém pensa ou sente. Nessa teoria, uma Forma existe por si mesma, além da ideia que temos dela. Platão, Parmênides, 132b–c.
  59. ↑ Na teoria, a beleza de um rosto pode desaparecer, mas a Beleza em si não envelhece nem muda. Essa diferença ajuda a entender por que Platão procura nas Formas a base de um saber estável.
  60. ↑ Dizer que uma Forma é universal significa que pode explicar muitos casos, como diferentes coisas belas. Não é uma ideia particular inventada na mente de uma pessoa.
  61. ↑ É a capacidade de produzir algo ou de lhe dar uma característica. A dificuldade é explicar como uma Forma que não muda pode ser a causa de qualidades em coisas que mudam. Platão, Fédon, 100c–e, e Parmênides, 130e–131e.
  62. ↑ É o modo de conhecer por imagens, como sombras e reflexos. Na linha dividida, tem o menor grau de clareza. Platão, A República, 509e–510a e 511d–e.
  63. ↑ É a confiança nas coisas visíveis, como um animal, em vez de sua sombra ou de seu reflexo. Nesse trecho, a palavra indica crença sobre essas coisas. Platão, A República, 510a e 511d–e.
  64. ↑ É o pensamento que avança por etapas, partindo de hipóteses para chegar a conclusões, como em uma demonstração matemática. Platão, A República, 510b–511b.
  65. ↑ No ponto mais alto da linha, indica a compreensão intelectual das Formas e de suas relações. Platão a distingue da observação de imagens e dos cálculos que ainda partem de hipóteses.
  66. ↑ Ver uma sombra e concluir o que a produz já envolve pensar sobre o que foi visto. Para Platão, esse tipo de julgamento ainda pode precisar de uma justificativa mais segura.
  67. ↑ É o raciocínio que avança passo a passo, como uma demonstração que parte de uma hipótese e chega a uma conclusão.
  68. ↑ Na argumentação do Fedro, o que move a si mesmo não precisa receber de fora o começo de seu movimento. Platão usa essa ideia para discutir por que a alma não pereceria.
  69. ↑ É a parte da alma ligada aos desejos de satisfação, como comer e beber. Para Platão, esses desejos precisam ser orientados pela razão. Platão, A República, 439d–441c.
  70. ↑ Além da raiva, envolve o impulso de defender a própria dignidade e reagir ao que parece injusto. Pode ajudar a razão a conter outros desejos. Platão, A República, 440a–441c.
  71. ↑ É a parte da alma que raciocina, compara possibilidades e procura o que é melhor para a pessoa como um todo. Platão, A República, 441e–442c.
  72. ↑ "Virtude" aqui é uma capacidade de cumprir bem uma função. A coragem, por exemplo, permite ao elemento combativo sustentar aquilo que a razão julgou correto.
  73. ↑ Uma parelha é um par de cavalos que puxa um carro, conduzido por um cocheiro. No Fedro, essa imagem representa os conflitos da alma e a tarefa da razão de orientá-la. Platão, Fedro, 246a–b e 253c–254e.
  74. ↑ É a passagem da alma de uma vida para outra, ligada à ideia de renascimento. Platão, Fédon, 81e–82b, e A República, 614b–621d.
  75. ↑ Sôma, corpo, e sêma, túmulo, têm sons próximos em grego. O jogo de palavras apresenta o corpo como algo que encerra a alma. Platão, Crátilo, 400b–c.
  76. ↑ Aqui, "virtual" significa que o conhecimento está guardado como uma possibilidade: pode ser recuperado, mesmo quando a pessoa não se lembra dele.
  77. ↑ No Banquete, o amor é o desejo de alcançar algo que falta. Esse desejo pode começar pela beleza de uma pessoa e se dirigir à beleza e ao conhecimento. Platão, O Banquete, 200a–201c e 210a–211d.
  78. ↑ No Fedro, é uma inspiração atribuída aos deuses. Platão a associa, entre outras coisas, à poesia e ao amor. Platão, Fedro, 244a–245a e 265a–b.
  79. ↑ A pergunta não é apenas por que uma coisa parece bela, mas como a mente poderia conhecer a Beleza que serviria de modelo a várias coisas.
  80. ↑ Na cena do Mênon, Sócrates faz perguntas ao jovem em vez de lhe entregar a resposta. Os erros e as correções durante a conversa fazem parte da busca.
  81. ↑ É a ideia de que um nome corresponde à natureza daquilo que nomeia. A escolha da palavra dependeria, assim, de como a própria coisa é. Platão, Crátilo, 383a–384d.
  82. ↑ Era quem recitava poemas diante de um público, especialmente os de Homero. O rapsodo podia interpretar um poema escrito por outra pessoa. Platão, Íon, 530a–c e 535b–e.
  83. ↑ Assim como um ímã pode atrair uma série de anéis, a imagem sugere que a inspiração passa de uma pessoa a outra. Ela não demonstra que cada pessoa conhece o assunto que recita.
  84. ↑ É o personagem sem nome próprio que conduz a conversa das Leis. A palavra indica que ele vem de Atenas; seus interlocutores vêm de Creta e de Esparta. Platão, Leis, 624a–625a.
  85. ↑ Trilogia é um conjunto de três obras relacionadas. Platão deixou o Crítias inacabado e não escreveu o diálogo chamado Hermócrates.
  86. ↑ "Científica" descreve aqui a busca de uma explicação organizada por princípios e relações matemáticas. O Timeu não usa o método experimental das ciências atuais.
  87. ↑ São afirmações aceitas como ponto de partida de um raciocínio. As conclusões são construídas a partir delas. Priberam, "axioma", Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.
  88. ↑ No relato, a comparação com um artesão não significa que Platão descreva uma oficina real. É uma maneira de apresentar uma inteligência que organiza o mundo segundo um modelo.
  89. ↑ É uma explicação que apresenta o mundo como resultado de um trabalho semelhante ao de um artesão, que usa um modelo e busca uma finalidade. Luc Brisson, introdução a Timée et Critias, 2001, p. 25–26.
  90. ↑ As coisas sensíveis são diferentes das Formas que servem de modelo. Platão chama de receptáculo aquilo em que as cópias aparecem e mudam; sua descrição não corresponde exatamente ao conceito atual de matéria.
  91. ↑ A necessidade representa as condições e os movimentos com que o demiurgo precisa lidar. Ele procura ordenar o que encontra, mas o relato não diz que possa fazer qualquer coisa sem limites.
  92. ↑ "Mesmo" e "Outro" indicam identidade e diferença. Ao combiná-los, Platão procura explicar como a alma do mundo pode reconhecer o que permanece igual e o que muda.
  93. ↑ Supralunar é a região além da Lua; sublunar é a região abaixo dela, que inclui a Terra. Essa divisão pertence à maneira antiga de descrever o universo. Priberam, "supralunar" e "sublunar", Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.
  94. ↑ Fogo, ar, água e terra são os elementos da explicação antiga apresentada no diálogo. Não equivalem aos elementos químicos definidos pela ciência moderna.
  95. ↑ Um poliedro regular tem faces com a mesma forma e tamanho, reunidas do mesmo modo em cada vértice. O cubo é um exemplo fácil de reconhecer.
  96. ↑ No Timeu, "medula" integra um modelo antigo de ligação entre alma e corpo. Não se deve ler essa passagem como uma descrição anatômica comprovada pela medicina atual.
  97. ↑ Os triângulos fazem parte da explicação geométrica do Timeu. Platão usa as mesmas figuras para explicar os elementos e a formação do corpo. Platão, Timeu, 73b–76e.
  98. ↑ Esses deuses são personagens do relato cosmológico. A distinção permite atribuir ao demiurgo a parte imortal da alma e aos seus auxiliares a formação do corpo e das partes mortais.
  99. ↑ Repleção é o preenchimento ou a reposição; depleção é a perda ou o esvaziamento. No Timeu, viver exige repor o que o corpo perde. Platão, Timeu, 81a–e.
  100. ↑ Na expressão de Aristóteles, "político" se refere à vida em uma comunidade organizada, a cidade ou pólis. Inclui a convivência e a participação nas decisões comuns. Aristóteles, Política, I, 2, 1253a.
  101. ↑ Em A República, os guardiões protegem a cidade. Entre eles são escolhidos os governantes; os demais atuam como seus auxiliares. Platão, A República, 412b–414b.
  102. ↑ "Constituição" aqui é a maneira como uma cidade distribui o poder e organiza suas funções. Não se trata necessariamente de um documento escrito como as constituições atuais.
  103. ↑ A palavra grega se refere à organização da vida pública da cidade. Por isso, pode ser traduzida por "regime" ou "constituição" conforme o contexto.
  104. ↑ Os produtores se ocupam, por exemplo, dos alimentos e dos ofícios necessários à cidade. Os guardiões a defendem, e entre eles são escolhidos os governantes.
  105. ↑ Temperança é moderar desejos e aceitar uma ordem para a convivência. No argumento, a cidade depende de um acordo entre as partes sobre quem deve governar.
  106. ↑ Platão não está dizendo que todas as cidades reais passaram por esses regimes nessa ordem. A sequência acompanha a perda gradual do princípio que tornaria o governo justo.
  107. ↑ Nesse projeto, o lote de terra não pode ser comprado ou vendido. Assim, procura-se manter a distribuição prevista para a cidade. Platão, Leis, 740b–741b.
  108. ↑ São pessoas que ocupam cargos públicos de governo e administração. Na cidade grega, esses cargos incluíam funções diversas, além da de julgar. Platão, Leis, 753a–755b.
  109. ↑ Essa Atenas pertence à narrativa de Platão. Não deve ser confundida sem cuidado com a cidade cujos acontecimentos os historiadores tentam reconstruir.
  110. ↑ Nesse exemplo, "medir" significa comparar prazeres e sofrimentos antes de escolher. O que parece mais agradável agora pode trazer um resultado pior depois.
  111. ↑ É o que convém à situação. Uma decisão pode ser correta em quantidade e, ainda assim, acontecer na hora errada ou de uma maneira inadequada.
  112. ↑ Num sistema, as teses costumam ser expostas como partes de uma construção única. Os diálogos de Platão reabrem perguntas e nem sempre chegam à mesma conclusão.
  113. ↑ A interpretação "dualista" de Platão aparece em filósofos como Nietzsche, que o veem como um depreciador do devir. Contudo, em Platão há uma só realidade, a chamada realidade inteligível. O mundo sensível é sempre percebido e pensado por meio dessa realidade, que o constitui como mundo sensível.
  114. ↑ Aqui, "econômica" significa que uma mesma explicação permite resolver vários problemas, reduzindo o número de hipóteses necessárias. Harold Cherniss, "L'économie philosophique de la théorie des idées", em Jean-François Pradeau (org.), Platon: les Formes intelligibles, 2001.
  115. ↑ Pense na pintura de uma cama: o pintor representa uma cama feita por um artesão, e essa cama já seria uma realização imperfeita de um modelo. É esse afastamento em duas etapas que Platão critica.
  116. ↑ Uma leitura dogmática procura doutrinas que Platão teria afirmado; uma leitura cética dá mais peso às perguntas e às dificuldades que os diálogos deixam abertas.
  117. ↑ Um comentário acompanha um texto trecho a trecho para explicar palavras, argumentos e dificuldades. Ele também registra como leitores de outras épocas entendiam o diálogo.
  118. ↑ Esse nome latino identifica uma coleção moderna de textos e estudos sobre as versões de Platão conhecidas na Idade Média, e não um livro escrito pelo próprio filósofo.
  119. ↑ Sinopse é um resumo organizado das ideias principais de uma obra. Um leitor podia conhecer parte do diálogo por esse caminho mesmo sem ler o texto grego completo.
  120. ↑ O interesse pelo grego antigo, a cópia de manuscritos e as novas traduções permitiram que mais leitores no Ocidente conhecessem diálogos antes difíceis de encontrar.
  121. ↑ No Parmênides, Platão apresenta uma refutação da possibilidade de conhecer as Ideias. No Sofista, mostra que a ausência de um modelo inteligível ameaça transformar todo o mundo sensível em simulacro.
  122. ↑ É tratar algo abstrato, como uma ideia ou uma regra, como se existisse por si mesmo. Porto Editora, "hipostasiar", Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa.
  123. ↑ Nesse uso, é o ensino reservado a um círculo de alunos ou iniciados de uma escola filosófica. Porto Editora, "esotérico", Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa, acepção filosófica.
  124. ↑ A causa formal explica a forma ou a organização de algo; a material explica de que ele é feito. Numa estátua de bronze, por exemplo, uma pergunta trata da figura e a outra, do bronze. Aristóteles, Física, II, 3, 194b–195a.
  125. ↑ "Ideais" indica que, nessa reconstrução, não são números escritos para fazer contas. Seriam princípios a partir dos quais se explicam outras realidades; a própria reconstrução é debatida.
  126. ↑ Sem os manuscritos originais de Platão, é preciso comparar cópias feitas em épocas diferentes. As diferenças entre elas ajudam os estudiosos a decidir como editar cada passagem.
  127. ↑ Um testemunho é uma cópia que preserva uma versão do texto. Os editores comparam essas cópias para identificar diferenças entre elas.
  128. ↑ Uma tetralogia é um grupo de quatro obras. Esse agrupamento organiza os escritos atribuídos a Platão. Diógenes Laércio, Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, III, 56–61.
  129. ↑ É o estudo da frequência das palavras e de como elas se distribuem nos textos. Esses dados ajudam a comparar o estilo de obras diferentes.
  130. ↑ São textos cuja autoria é rejeitada ou não foi comprovada. Um texto pode ter sido transmitido com o nome de Platão sem ter sido escrito por ele. Porto Editora, "apócrifo", Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa.
  131. ↑ É a discussão voltada a vencer o adversário. No Eutidemo, Sócrates a distingue de uma investigação que procura conhecer e compreender. Platão, Eutidemo, 272a–b e 277d–278c.
  132. ↑ Nessa coluna, a autoria ainda é discutida. A coluna de obras apócrifas reúne textos que, no arranjo adotado aqui, não são aceitos como escritos por Platão.
  133. ↑ Uma ordem de leitura pode pôr obras próximas pelo tema sem indicar qual delas foi escrita primeiro. Por isso, as tetralogias não servem sozinhas para datar os diálogos.
  134. ↑ É um formato tradicional de livro. A folha de impressão é dobrada três vezes, formando oito folhas, com dezesseis páginas; o volume reúne muitas dessas folhas dobradas. Priberam, "in-octavo", Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.

Os trechos citados em grego antigo seguem a edição de John Burnet.

Obras filosóficas citadas

  1. ↑ Platão, A República, VI, 508e–509b.
  2. ↑ Platão, A República, IV, 433a–441c.
  3. ↑ Platão, Timeu, 20e.
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  7. ↑ Diógenes Laércio, edição de 1999, p. 373. Ver a seção Biografias de Platão.
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  32. ↑ Platão, A República, II, 381e e seguintes, e III, 383a e seguintes.
  33. ↑ Em A República, III, 414b–c e seguintes, por exemplo, o mito dos metais é apresentado como uma história a contar aos cidadãos para que aceitem a ordem social proposta.
  34. ↑ Platão, Teeteto, 151e–152a, onde Sócrates aproxima a definição de Teeteto da máxima de Protágoras.
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  40. ↑ "Qual é a definição daquilo que se chama alma? [...] O movimento capaz de mover a si mesmo". Platão, Leis, X, 895e–896a.
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Referências

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  66. ↑ Aulo Gélio, Noites áticas, III, 13: "Demóstenes, durante a juventude, quando era discípulo de Platão, tendo ouvido por acaso o orador Calístrato discursar na assembleia do povo, deixou a escola do filósofo para seguir o orador. Em sua primeira juventude, Demóstenes frequentava a Academia, onde assistia assiduamente às lições de Platão. Certo dia, ao sair de casa para ir, como de costume, à escola de seu mestre, vê uma grande multidão. Pergunta o motivo e lhe respondem que aquelas pessoas correm para ouvir Calístrato. Esse Calístrato era um daqueles oradores públicos de Atenas que os gregos chamam de demagogos. Demóstenes se desvia por um instante de seu caminho para verificar se o discurso que atraía tanta gente era digno de tamanha expectativa. Chega e ouve Calístrato pronunciar sua notável defesa sobre Oropos. Fica tão emocionado, encantado e arrebatado que, imediatamente, abandona Platão e a Academia e passa a seguir Calístrato".
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  261. ↑ Museus Vaticanos. "School of Athens", em inglês. Consultado em 30 de setembro de 2026.
  262. ↑ Galeria Nacional da Grécia. "Plato", em inglês. Consultado em 30 de setembro de 2026.
  263. ↑ Rijksmuseum. "Bust of Plato", catálogo da coleção, em inglês. Consultado em 30 de setembro de 2026.
  264. ↑ National Gallery of Art. "The Academy of Plato", em inglês. Consultado em 30 de setembro de 2026.
  265. ↑ Metropolitan Museum of Art. "Alexander Visits the Sage Plato in his Mountain Cave", registro de coleção, em inglês. Consultado em 30 de setembro de 2026.
  266. ↑ Biblioteca do Congresso. "Main Reading Room", em inglês. Consultado em 30 de setembro de 2026.
  267. ↑ Hofstra University Museum of Art. "Museum Outdoors: Plato", em inglês. Consultado em 30 de setembro de 2026.
  268. ↑ União Astronômica Internacional e Serviço Geológico dos Estados Unidos. "Plato". Gazetteer of Planetary Nomenclature, em inglês. Consultado em 30 de setembro de 2026.
  269. ↑ Lutz D. Schmadel. Dictionary of Minor Planet Names. 5.ª ed. Berlim: Springer, 2003, verbete "(5451) Plato", referência à circular Minor Planet Circular 22509. ISBN 978-3-540-00238-3.
  270. ↑ Agência Espacial Europeia. "Plato factsheet", em inglês. Consultado em 30 de setembro de 2026.

Bibliografia

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  • Aristóteles. "Politiques". Em: Œuvres complètes. Éditions Flammarion, 2014. Tradução de Pierre Pellegrin. ISBN 978-2081273160. 2.923 p.
  • Luc Brisson. Platon: Œuvres complètes. Paris: Éditions Flammarion, 2008. Organização e tradução. ISBN 978-2-08-121810-9. 2.204 p. Primeira edição em 2006.

Biografias de Platão

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  • Luc Brisson, "La lettre VII de Platon, une autobiographie", em L'Invention de l'autobiographie, Presses de l'École Normale Supérieure, 1993, p. 36-46.
  • Apuleio, Sur Platon et sa doctrine (cerca de 150), em Opuscules philosophiques et fragments, texto estabelecido e traduzido por Jean Beaujeu, Les Belles Lettres, 1973.
  • Diógenes Laércio, Vies et doctrines des philosophes illustres (cerca de 200), III, introdução, tradução e notas de Luc Brisson, La Pochotèque, Paris, 1999, p. 369-465.
  • Charles Auguste Mallet. Histoire de l'Ecole de Mégare. Paris, 1845.
  • Anônimo. Prolégomènes à la philosophie de Platon. Les Belles Lettres, 2003. Coleção Collection des universités de France, série grega. Tradução de Jean Trouillard, Alain-Philippe Segonds. ISBN 978-2-251-00412-9. 145 p. Primeira edição em 1990.
  • Olimpiodoro, o Jovem, Vie de Platon em grego, em Commentaire sur le Premier Alcibiade de Platon texto composto depois de 527 : Commentary on the 'First Alcibiades' of Plato ; critical text and indices, edição de L. G. Westerink, Amsterdã, North-Holland Publ. Co., 1956.
  • Frédéric Mathieu. Platon, l'Égypte et la question de l'âme. Paris: In Libro Veritas, 2013. p. 24-106. ISBN 978-2-35209-718-1. 522 p.

Filosofia e política em Platão

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  • Richard Kraut. "Plato". The Stanford Encyclopedia of Philosophy, 2017.
  • Eric Brown. "Plato's Ethics and Politics in The Republic". Em: The Stanford Encyclopedia of Philosophy. 2017.
  • Chris Bobonich e Katherine Meadows. "Plato on utopia". Em: The Stanford Encyclopedia of Philosophy. 2018.
  • Dorothea Frede. "Plato's Ethics: An Overview". Em: The Stanford Encyclopedia of Philosophy. 2017.
  • Luc Brisson. Introduction: Timée et Critias. GF Flammarion, 2001. 450 p.
  • Luc Brisson. Introduction: Platon : La République. GF Flammarion, 2002. 799 p.
  • Luc Brisson e Jean-François Pradeau. Introduction: Politique (Platon). GF Flammarion, 2011. 319 p.
  • Monique Dixsaut. Platon. Vrin, 2012. 272 p.
  • Alexandre Koyré. Introduction à la lecture de Platon. nrf Gallimard, 2004. 229 p.

Obras gerais

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Sobre os diálogos

Sobre Platão, a matemática e as ciências

Sobre as Formas inteligíveis

  • Martin Heidegger. De l'essence de la vérité. Approche de l'allégorie de la caverne et du Théétète de Platon. Paris: Gallimard, 2001. Coleção Tel. Tradução de Alain Boutot. ISBN 2-07-073278-9. 382 p.
  • William Néria, Le mythe de la caverne. Platon face à Heidegger, Paris, Cerf Patrimoines, 2019, 390 p.
  • Jean-François Pradeau. Platon: les Formes intelligibles. Paris: PUF, 2001.
  • Yvon Lafrance. Deux lectures de l'Idée du Bien chez Platon : République 502 c - 509 c. Laval théologique et philosophique. junho de 2006. Vol. 62. n.º 2. p. 245-266. Consultado em 13 de agosto de 2020.
  • André-Jean Festugière, Contemplation et vie contemplative chez Platon, Paris, Vrin, 1936.

Estudos diversos

  • Alain, Onze chapitres sur Platon, Paris, Paul Hartmann, 1928.
  • Ronald Bonan, Platon, Paris, Les Belles Lettres, 2014.
  • Luc Brisson:
    • Le Même et l'Autre dans la structure ontologique du Timée de Platon
    • Platon, les mots et les mythes, Série histoire classique, Paris, La Découverte, 1994.
  • Luc Brisson e Jean-François Pradeau, Le Vocabulaire de Platon, Paris, Ellipses, 1998.
  • Luc Brisson e Francesco Fronterotta. Lire Platon. Paris: PUF, 2006. Coleção Quadrige.
  • Jean Brun. Platon et l'Académie. Presses universitaires de France, 1984. Coleção Que sais-je ?. Reimpressão: esgotada.
  • François Châtelet. Platon. Paris: Éditions Gallimard, 1965. Coleção Folio. ISBN 2-07-032506-7. 254 p. Reimpressão: 1990.
  • Thomas De Koninck palavras introdutórias. Relire Platon. Laval théologique et philosophique. junho de 2006. Vol. 62. n.º 2. p. 197-198.
  • Auguste Diès, Autour de Platon, 2 tomos, Paris, Beauchesne, 1927.
  • Monique Dixsaut, A. Castel-Bouchouchi, G. Kévorkian, Lectures de Platon, Paris, Ellipses, 2013.
    • Contre Platon 1 : Le platonisme dévoilé, Paris, Vrin, "Tradition de la pensée classique", 1993 segunda edição corrigida em 2007.
    • Contre Platon 2 : Le platonisme renversé, Paris, Vrin, "Tradition de la pensée classique", 1995.
  • C. Joubaud, Le Corps dans la philosophie platonicienne, Paris, Vrin, 1991.
  • Yvon Lafrance, La Théorie platonicienne de la doxa, Paris, Les Belles Lettres, 1981.
  • Jean Lombard, Platon et la médecine, le corps affaibli et l'âme attristée, L'Harmattan, 1999.
  • Jean-François Mattéi, L'Étranger et le Simulacre, Paris, PUF, "Épiméthée", 1983. - Platon et le miroir du mythe. De l'âge d'or à l'Atlantide, Paris, "Thémis philosophie", 1996 ; reedição PUF, "Quadrige", 2002. - Platon, Paris, PUF, coll. Que sais-je ?, 2005 ; 3.ª edição de 2010.
  • Joseph Moreau, L'Âme du monde de Platon aux stoïciens, Hildesheim, Olms, 1939.
  • Jean-François Pradeau, Platon, l'imitation de la philosophie, Paris, Aubier, 2009.
  • Richard H. Kraut, organização, The Cambridge Companion to Plato, Nova York: Cambridge University Press, 1992, em inglês.
  • Marie-Dominique Richard, L'Enseignement oral de Platon, Paris, Le Cerf, 1986.
  • Léon Robin. Platon. Paris: PUF, 1997. Primeira edição em 1935.
  • Léon Robin. La Théorie platonicienne de l'amour. Paris: Félix Alcan, 1908.
  • Pierre-Maxime Schuhl, L'Œuvre de Platon, Paris, Vrin, 1954.
  • J. Souilhé, Études sur le terme dunamis dans les dialogues de Platon, Paris, Alcan, 1919.
  • Bernard Williams, Platon. L'invention de la philosophie, traduzido do inglês por Ghislain Chaufour, Paris, Le Seuil coleção "Points Essais", série "Les grands philosophes", n.º 421, 2000.
  • Sebastián Fox Morcillo, De naturæ philosophia seu de Platonis et Aristotelis consensione libri quinque, 1554.

Sobre Sócrates e Platão

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  • T. Brickhouse e N. D. Smith. Plato's Socrates. Oxford, 1994.
  • Louis-André Dorion. Socrate. Paris: PUF, 2004. capítulos 2 e 4.
  • C. Rowe. Killing Socrates : Plato's later thoughts on democracy. Journal of Hellenic Studies. 2001. n.º 121.

Ética e política

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  • Hannah Arendt, "Qu'est-ce que l'autorité ?", em La Crise de la culture, Paris, Gallimard, 1972.
  • J.-M. Bertrand, De l'écriture à l'oralité, Lectures des Lois de Platon, Paris, Publications de la Sorbonne, 1999.
  • Allan Bloom, La Cité et son ombre : essai sur la République de Platon, 1968, 1991 reedição, 2006 tradução francesa, Éditions du Félin.
  • Victor Brochard, La Morale de Platon 1905, Paris, Alcan, 1905.
  • Jacques Brunschwig, "Platon. La République" em François Châtelet, Olivier Duhamel e Évelyne Pisier, Dictionnaire des œuvres politiques, Paris, PUF, edição ampliada, 2001.
  • Monique Canto-Sperber, "Les paradoxes de la vertu : remarques sur la philosophie morale de Platon", em Problèmes de la morale antique coletânea, 1993, p. 59-74.
  • Cornelius Castoriadis, Sur le Politique de Platon, Paris, Le Seuil, 1999.
  • Monique Dixsaut organização, com a colaboração de F. Teisserenc, Études sur la République, 2 volumes, Paris, Vrin, 2006.
  • Arnaud Macé, Platon, Philosophie de l'agir et du pâtir, Academia Verlag, 2006.
  • Michel-Pierre Edmond, Le philosophe-roi : Platon et la politique, Critique de la politique, Paris, Payot, 1991.
  • A. Neschke, Platonisme politique et théorie du droit naturel, Peeters, Lovaina e Paris, 1995 e 2003.
  • M. Pierart, Platon et la cité grecque. Théorie et réalité dans la constitution des Lois, Bruxelas, Palais des Académies, 1974.
  • Karl Popper, La Société ouverte et ses ennemis (1946), vol. 1: L'Ascendant de Platon, tradução de J. Bernard e P. Monod, Paris, Le Seuil, 1979.
  • "Portrait : Platon (429-348)". La nouvelle lettre, n.º 1.084 (20 de agosto de 2011) : 8.
  • Jean-François Pradeau. Platon et la Cité. Paris: PUF, 1997.
  • Jacques Rancière, Le Philosophe et ses pauvres, 1983.
  • Leo Strauss, Sur le Banquet de Platon, tradução de Olivier Sedeyn, Combas, L'Eclat, 2006.

Audiolivros

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Obras em português

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Leitura adicional

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Ver também

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Ligações externas

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Em português

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Edições e traduções disponíveis na internet

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  • Textos de Platão no Wikisource, em português.
  • "Platão, Carta I", tradução na Revista Archai, Universidade de Brasília, em português.
  • "Carta III de Platão", tradução na Revista Archai, em português.
  • "Platão, Carta IV", tradução na Revista Archai, Universidade de Brasília, em português.
  • A república, ou, Sobre a justiça, registro da edição brasileira no catálogo da Biblioteca Nacional, em português.
  • República, registro no catálogo da Biblioteca Nacional de Portugal, em português.
  • A República, tradução de Carlos Alberto Nunes, Editora da Universidade Federal do Pará (em português).
  • A República, tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, Fundação Calouste Gulbenkian (em português).

Bibliografia

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  • Platão, organizado por Gabriele Cornelli e Rodolfo Lopes, Imprensa da Universidade de Coimbra, em português.
  • Coimbra Companions: Platão, apresentação da obra pela Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia, em português.

Repertórios de recursos sobre a filosofia antiga

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Artigos e estudos

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Em outros idiomas

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Edições e traduções disponíveis na internet

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Bibliografia

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Artigos e estudos

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