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LAZER

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•02.07.2015 • 06h00 • atualizado em 21.04.2016 às 11h22

Largo da Independência

Por muito tempo, o Primeiro de Maio foi tipo república de miúdos vindos de guerras lá no interior.

Por Pedro Cardoso.

Aqui muita coisa começou. O parto de um país, histórias de casamentos, os primeiros discos de artistas, as lutas da nova geração. No Largo da Independência (ou Primeiro de Maio), em Luanda, a História continua o seu curso. Um país numa praça.

I

Ryszard Kapuscinski escreveu:

“O silêncio reinava na praça. Da tribuna dos oradores, Agotinho Neto leu um texto proclamando a República Popular de Angola”:

“Em nome do Povo angolano, o Comité Central do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), proclama solenemente perante a África e o Mundo a Independência de Angola.”

“Faltou-lhe a voz e teve de interromper a leitura várias vezes. Quando terminou, a multidão invisível aplaudiu e o povo deu vivas. Não houve mais discursos. Pouco depois, as luzes do palco apagaram-se e toda a gente se foi embora rapidamente, perdida na escuridão.”

Livro: “Mais um dia de Vida – Angola 1975”.

A Dipanda, aqui, há quase 40 anos.

 

II

Improvisa Sansila:

“Aqui DJ Sansila

Aqui está-se bem

DJ puto me leva a engrossar

É assim:

Passo o dia debaixo da dor

À procura do pão do dia

Mas a malta sempre na vazia

Eu sou capaz de me rebelar

De tanto assistir telejornal

Dizendo que tudo vai mudar

Mas afinal ‘tá tudo a piorar

É só me levar até pa esquadra

O filho tirei do mata fraco

Quem me conhecer manda à grade

Um abraço pá mota

E eu tirei tipo esquadro…”
Autor: Sansila. Grupo: Bolão Agarra. Estúdio: Largo da Independência, Luanda. Data de lançamento (ao estilo dos músicos que ali promovem discos): Março de 2007.

Padre Horácio, famoso missionário argentino que, durante anos a fio, acolheu crianças que vagueavam por Luanda, apresentou-me a Sansila. Puto de rua, do grupo “Agarra”. Soltou este improviso de kuduro ali mesmo, de noite, no largo, depois de contar as entranhas desse mundo de grupos de crianças sem tecto de Luanda.

Por muito tempo, o Primeiro de Maio foi tipo república de miúdos vindos de guerras lá no interior. Bem voados, em pontes aéreas do interior do país e depositados na “mamã-Luanda” (expressão roubada a uma amiga). Praça-rotunda, centro capitalino do “dá-só”

Casa de cimento com quintal à sombra de estátua. Agostinho Neto que por ali já não discursa. Ele mesmo só olha, braço no ar, para Catete. A estiga caluanda assinala: Nguxi está de costas viradas para Luanda.

Sansila conclui em bis:

“Se baba chegar, nós aqui vamos babular.

“Se baba chegar, nós aqui vamos babular.”

III

Era 13 de Outubro de 2007 e no Primeiro de Maio havia vigília. Uma das primeiras,  pela liberdade de expressão. Líderes políticos de então, músicos, actores, organizações da sociedade civil, até a ONU e jornalistas. Noite, velas e palavras. Pouco mais de 200 pessoas escutavam os apelos ao governo para que respeitasse as liberdades de cada um de nós.

Um cordão policial pouco apertado rodeava o largo. Mas era sábado à noite e havia casamento. Os flash de repente tomaram conta do Primeiro de Maio. Por entre os manifestantes, tensos porque “nunca se sabe”, pais, irmãos, primos e amigos dos noivos, encafuados em fatos e em vestidos de gala, viraram infiltrados, tipo secreta alegre e bandeirosa. Uma nuvem de perfume e risos de quem vai a caminho do boda já meio chupado concorriam com o megafone activista. Vivas aos noivos misturavam-se com vivas à liberdade. E já ninguém sabia quem era quem.

De repente, arrastando a cauda do vestido, chegou ela, a noiva! Pediu licença aos manifestantes de cara séria, às velas e aos cartazes no chão, e lá cumpriu a tradição de Luanda, recebendo a bênção do Pai grande.

Do alto do prédio que fica ali mesmo na margem da rotunda, uma câmara filmava tudo. E não era a televisão. Muito menos vídeo do casamento.

IV

Largo da Independência, segunda-feira, 7 de Março de 2011. Dia da manifestação anti-Eduardo dos Santos, convocada anonimamente por Internet, e que pôs Luanda em estado de tensão.

Cronometiza a edição 164 do Novo Jornal:

“00h00 – O Largo da Independência está praticamente vazio. Um par de namorados ocupa um dos bancos (…) A noite está quente.

00h15 – Vindo da Vila Alice, chega um grupo de 15 jovens, entre os quais Ikonoklasta, ou Brigadeiro Mata Frakuz [Luaty Beirão], o também rapper Carbono, o poeta Andrade da Silva ‘O Sábio’, Firmino Costa, Toy K, Mona Dya Kidi.

00h50 – As polícias Militar e de Intervenção cercam o Largo da Independência. Um agente interpela o grupo, pedindo-lhes para dispersar. Depois de uma breve conversa, onde os jovens reafirmam que são um ‘movimento cultural’ e pedem um ‘lugar alternativo para reunir’, o agente retira-se e comunica por rádio: ‘Estamos no largo 1.º de Maio’.

00h55 – Chega a Comandante Provincial de Luanda, Elisabeth Rank Franque, e mais duas altas patentes da Polícia (…) Com uma postura mais agressiva, perguntam ‘quem é o Brigadeiro?’. Localizado o Mata Frakuz, a Comandante Bety afirma: ‘Com este já não é necessária conversa, algemem-no e cela’. Ordem prontamente atendida. Luaty Beirão é levado de imediato para a Direcção Provincial de Investigação Criminal (DPIC).

00h55 – É dada a ordem para todo o grupo se sentar, inclusivamente os jornalistas do NJ ali presentes. Um agente (…) atira: ‘Se vocês seguem o Brigadeiro, então vão segui-lo para onde ele vai’. Dá a ordem para levar todos para as carrinhas. Os repórteres do NJ apelam ao direito a informar. ‘Vocês são jornalistas, mas é óbvio que estão com estes’, respondem. ‘A acusação? Vão saber, mas não é aqui. Vão presos e o vosso advogado David Mendes que vos defenda.”

Aos pés de Agostinho Neto, nascia, nesse preciso momento, o movimento Central 7311. Desde esse dia, e durante os anos que se seguiram,  uma série de manifestações, a maioria violentamente reprimida, teve o Largo da Independência como palco principal. Detenções, agressões, provocações e a morte de activistas como Hilberto Ganga, Isaías Cassule e Alves Kamulingue fazem parte da lista da repressão ao movimento diabolizado pelo Governo angolano. Muitos deles estão agora presos. Acusados de preparar um “golpe de Estado” com contornos indefinidos. Aguardam-se as provas.

V

No Largo da Independência, um eco:

“Porém, a nossa luta não termina aqui. O objectivo é a independência completa do nosso País, a construção de uma sociedade justa e de um Homem Novo.”

Agostinho Neto, no momento zero de Angola.

Praça da Independência

Estátua de Agostinho Neto, no Largo da Independência | Ampe Rogério/RA
A praça é lugar de recreação para muitos dos habitantes de Luanda | Ampe Rogério/RA
Proclamação da independência por Agostinho Neto, na noite de 11 de Novembro de 1975 | DR
Este largo é um dos testemunhos importantes da História recente de Angola | Ampe Rogério/RA
O Largo da Independência é um dos pontos centrais de Luanda | Ampe Rogério/RA
Ampe Rogério/RA
Várias remodelações ao longo dos tempos deram várias caras a esta praça | Ampe Rogério/RA
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